sábado, 12 de setembro de 2009

E NÃO É

Aquelas Capivaras

Não preciso dizer que minha terrinha é pequena e não tem muito o que fazer, principalmente quando estamos de férias e procurando não fazer nada mesmo. É de casa p’ra a boca da ponte, p’ro Balneário, p’ras cachoeiras e p’ra casa novamente. Mas às vezes canso de não fazer nada e me incluo na turminha dos que fazem tudo para também não “fazer nada” além de jogar conversa fora nos banquinhos defronte do Quiosque Fim de Tarde no Balneário, vendo o nado sincronizado das capivaras da praia. Dizem que elas transformaram nos cães de guarda dos quintais dos moradores da Rua José Camilo Rodrigues e que inclusive à noite não deixam nem a alma do “João Moriço” que suicidou e foi sepultado naquelas bandas, amolar os outros moradores pedindo café fora de hora. Sorte do Caio, um sujeito “muito corajoso” que mora nas adjacências ! A turma dos banquinhos passa ali quase o dia inteiro e não conta mentira, apenas vive inventando algumas verdades. Mas,como meu tempo é curto, gosto mesmo é de ficar na Pedra Preta debaixo do Pé de Ingá, onde todas as tardes encontro o Chiquinho, que além de filósofo surrealista, personagem de todas as histórias do folclore do lugar, é membro nato da marujada da Dona Maria, vice campeão da corrida das tartarugas, exímio nadador, pescador de mão cheia e ainda namorador “inveterado”, mesmo com seus setenta e poucos anos de idade. O nosso amigo de muito se especializou em comunicar com os animais da redondeza e às vezes se transforma até em psicólogo veterinário. O caso mais recente foi quando ele curou a depressão de um cachorro, acometido de uma desilusão consequência de um amor impossível, quase um incesto. É um contador de causo sem igual, faz o tempo fluir sem que a gente perceba a sua velocidade, principalmente depois de umas três pinguinhas. O último do meu arquivo foi ele quem me contou. Pois bem, disse que no mês passado, enquanto todos foram para a Igreja rezar para o Padroeiro Santo Antônio, p’ra distrair ele foi pescar naquele lugar de sempre. Mas era dia dos peixes, pois depois de uma hora e dez minutos, havia tirado do rio apenas um piauzinho que pendurou no tronco frágil de uma canabrava ribeirinha. Desanimado, decidiu ir embora. Mas antes p’ra fazer uma “boquinha de pito” p’ro almoço, resolveu tomar uma pinguinha daquela que sempre traz no embornal de couro, vinda lá do alambique do Alexandre. Foi quando percebeu a aproximação sorrateira de uma capivara grandona, querendo petiscar o único peixe daquela empreitada. Procurou espantá-la, mas não tinha nada por perto. Nem uma pedra e nem um pedaço de pau. Restando três dedos de pinga na garrafinha e como já ia reabastecê-la mesmo, jogou a sobra do líquido precioso no focinho do animal que já estava fora da água. Ela se assustou fugindo num mergulho, provocando bolhas de ar na água. Novamente, com sua pressa rotineira, ele sentou na areia, para arrumar seus apetrechos nos devidos lugares. Foi quando alguma coisa tocou-lhe os pés que estavam dentro da água. Pois bem, era novamente a capivara chefe com mais duas secretárias, trazendo na boca de cada uma, uma traíra de mais de setenta centímetros, fazendo uma proposta de trocar os peixes por um litro daquela pinga. O Chiquinho até me pediu para guardar segredo, pois se não o encanto quebra. Mas, só para os amigos, foi assim que naquelas férias me tornei um grande pescador. Ah, ia me esquecendo ! E assim também que aquelas capivaras decidiram morar ali, numa toca de pedra defronte do hotel do Bebé... E não é ? ( w. catizany )