domingo, 21 de março de 2010

E NÃO É ?

Na minha terra as madrugadas são mágicas e místicas, principalmente quando faz frio, ocasião em que as estrelas são cobertas pelas nuvens que vagam sem destino pelo infinito. O mistério se mistura com a escuridão, com o silêncio e com o deserto e tudo fica com a feição de um fim de mundo. Daí tudo passa a ser possível, inclusive o irreal. Basta atenção e sensibilidade para vivenciar algo que não se inclui nos parâmetros da realidade. E como tenho insônia frequente faço destes momentos, condição para decifrar o silêncio, o sombrio e  buscar  o novo, o inesperado, o mágico e o místico. Não pensem que sou caçador de lobisomens e muito menos contato imediato de assombrações, mas lido com este assunto com fascinação e respeito. Outro dia, depois de horas no velho banco da varanda sem nada fazer, resolvi ou fui guiado estranhamente a visitar alguns lugares que marcaram parte da minha infância: a ponte, a praia e o adro da Igreja. Isto seria normal para qualquer um se não fosse exatamente duas horas da madrugada. Mesmo assim saí e no meio daquela ponte deixei projetar fatos da infância em cada coisa que via. Observei que o leito do rio descia na mesma direção e a velocidade era a mesma de centenas de anos. Em pensamento me vi naquelas mesmas brincadeiras comuns daquela época – o “31 de Janeiro” , o “Brasil contra Alemanha”, o “Finca”, até nas “Peladinhas de Futebol” no campinho da praia. Hoje está tudo diferente. A praia está iluminada, transformou-se em balneário, tem pousada, tem quadra, coreto, barzinho e um circo armado, recém chegado à cidade. A rua nesta hora ainda continua deserta e caminhei como uma alma penada até chegar ao adro. Falei com Deus pela janela da Igreja e resolvi fazer uma penitência, isto é, descer pela escadaria da praça, mesmo sabendo que havia outros caminhos mais fáceis e menos cansativos. Naquela noite nada havia de novo e nem de anormal. A não ser o latido do cão Totó ou o mugido da vaca estrela ou ainda o cantarolar diferente de um galo músico. Sem atrativos era hora de tentar dormir um pouco. Refiz o caminho ao inverso e ao chegar no número 369, minha casa, quase na boca da ponte, ouvi: “hei moço !” Era um menino que devia ter aproximadamente sete anos, pele branca, pés descalços, calça curta, camiseta azul e suspensório vermelho, de pé no pilar esquerdo da ponte. Sua feição me era até familiar. Olá respondi; o que fazes aí a esta hora, meu jovem ? Eu tenho insônia que nem o senhor. Vago pela noite algumas horas. Imito passarinho, o senhor que ver ? Devido ao adiantado da hora e pensando que fosse um artista mirim daquele circo eu disse carinhosamente, mais tarde “ouço seu canto” no picadeiro. E ele me retrucou com a voz meiga e baixa, eu não sou do circo. Mas não tem importância, fica para uma outra noite, uma outa insônia; o dia está chegando e meu habitat fica bem longe. E sem tempo para outras desculpas e para o meu espanto levantou-se em vôo rasante e horizontal sobre a ponte e sumiu por entre a névoa, rumo norte... E não é ? (w.catizany, escreveu)