Ando em busca de um encontro com a verdade, nem que seja por tempo escasso, mas está difícil. É que tenho escutado tanto falatório estes dias, tanto “disse-me-disse”, que está uma barra raciocinar no meio de toda essa confusão, aproveitar alguma coisa. É por isso que de vez em quando, como quem não está satisfeito com esta situação, com os rumos do cotidiano, procuro outros assuntos que não seja os normais da mídia. Numa destas minhas investidas encontrei um texto interessante, uma fábula antiga, que a seguir transcrevo para o conhecimento de todos vocês. – “ Certa vez, um macaco, desses bem astutos, quis fazer um bolo, mas não tinha os ingredientes. Resolveu comprá-los de alguns vizinhos, comprometendo-se pagar a dívida em 24 horas. Da galinha pegou os ovos; da raposa, o trigo; do cachorro, o açúcar; e da onça, o fermento. Dia seguinte, com intervalos de meia hora, os quatro credores apareceram. A galinha foi a primeira. O macaco esticou conversa, até ver a raposa apontar na esquina. Mandou a penosa se esconder atrás do armário. A um sinal traidor do macaco, a galinha virou refeição da raposa. O cachorro chegou e devorou a raposa e, por fim, a onça, engoliu o cachorro. E aí a feroz credora quis receber pelo fermento. Indefeso, mas com fina astúcia, o macaco convenceu a onça de que ela tinha na barriga uma galinha, uma raposa e um cachorro, um régio pagamento. O sossego durou um dia. Faminta de novo, a onça espreitou aquele que se achava o mais esperto da terra e, não recebendo o que ele lhe devia, comeu-o também.” – Sem querer querendo, mas retornando o pensamento a um dos assuntos do momento – a política, esta fábula se encaixa direitinho na realidade atual. Nós não merecemos viver num reino de macacos, de raposas, onças, cães e galinhas e se não tivermos o devido cuidado, se não acompanharmos bem de perto o desfecho desta lição, estes bichos poderão se reencarnar novamente, razão pela qual tiro uma lição importante deste episódio: devo ser sempre contra a continuidade política, a reeleição em todos os níveis e a favor do rodízio de cargos, pois é público e notório a lambança que aqueles que fazem as leis, que aqueles que executam as leis e aqueles que julgam as leis estão fazendo. Mas, uma vez mais censurando meus pensamentos e outra vez fugindo destes assuntos, procuro consolo na música, e o místico Zé Ramalho, com sua voz rouca, continua: “Novamente a idéia de sairmos do poço, da fundura do poço, da garganta do poço... na voz de um cantador...” Pois é...
domingo, 12 de julho de 2009
RAPIDINHAS
Propor um terceiro mandato é aderir à monarquia.
No Senado, a sujeira da cozinha já invadiu os salões de estar.
A bandalheira continua, o Sarney também.
Lula tornou-se um espectro do que já foi, perdeu os traços de coerência.
“Dilma não quer Sarney demonizado”. Nós não queremos por outro motivo.
De manhã é contra, de tarde é a favor. Que saudades do PT !
Gripe suína: só os casos graves farão exame... E a palavra do Presidente, você lembra ?
Para você tiramos o nosso chapéu, José de Alencar, sua luta é outra, você é muito homem... Felicidade.
No Senado, a sujeira da cozinha já invadiu os salões de estar.
A bandalheira continua, o Sarney também.
Lula tornou-se um espectro do que já foi, perdeu os traços de coerência.
“Dilma não quer Sarney demonizado”. Nós não queremos por outro motivo.
De manhã é contra, de tarde é a favor. Que saudades do PT !
Gripe suína: só os casos graves farão exame... E a palavra do Presidente, você lembra ?
Para você tiramos o nosso chapéu, José de Alencar, sua luta é outra, você é muito homem... Felicidade.
PALAVRA FRANCA
É isso aí D2, o momento é de caos. A população tá bolada, muito bolada.Eu também tô bolado parceiro.Numa cidade muito longe, muito longe daqui,que tem problemas que parecem os problemas daqui, que tem favelas que parecem as favelas daqui.Existem homens maus sem alma e sem coração, existem homens da lei com determinação.. Mais o momento é de caos porque a população na brincadeira sinistra de polícia e ladrão, não sabe ao certo quem é, quem é herói ou vilão, não sabe ao certo quem vai, quem vem na contramão . É, não sabe ao certo quem é, quem é herói ou vilão, não sabe ao certo quem vai, quem vem na contramão; porque tem homem mal que vira homem bom quando banca o remédio, quando compra o feijão, quando tira pra dá, quando dá proteção. Porque tem homem da lei que vira homem mal quando vem pra atirar, quando caga no pau, quando vem pra salvar e sai matando geral.É parceiro é aí que a chapa esquenta, é nessa hora que a gente vê quem é fiel. Mas tanto lá como cá, ladrão que rouba ladrão não tem acerto, é pedir terror, não tem perdão. Quem fala muito é X-9 e desses a gente tem de montão. Mais o X do problema tá na corrupção e um dia o bicho pegou, o coro comeu, polícia e bandido bateram de frente. E aí meu cumpadre, aí tu sabe, aí foi chapa quente, chapa quente, bateu de frente um bandido e um Sub-tenente lá do batalhão. Foi tiro de lá e de cá, balas perdidas no ar, até que o silêncio gritou, dois corpos no chão, que azar ! Feridos na mesma ambulância, uma dor de matar, mesmo mantendo a distância não deu pra calar e polícia e bandido trocaram farpas, farpas que pareciam balas e o bandido falou: você levou tanto dinheiro meu, agora vem querendo me prender e eu te avisei você não se escondeu, deu no que deu e a gente tá aqui pedidindo a Deus pro corpo resistir. Será que ele tá afim de ouvir? Você tem tanta basuca, Pistola, fusíl, granada, me diz pra que tu tem tanta munição? É que além de vocês, nóis ainda enfrenta um outro comando, outra facção que só tem alemão sanguinário, um bando de otário, marrento, querendo mandar. Por isso que eu tô bolado assim, eu também tô bolado sim. É que o judiciário tá todo comprado e o legislativo tá financiado, e o pobre operário que joga seu voto no lixo não sei se por raiva ou só por capricho coloca a culpa de tudo nos homens do camburão. E eles colocam a culpa de tudo na população. (E o bandido ?...) E se eu morrer vem outro em meu lugar. (Polícia ! ...) E se eu morrer vão me condecorar. E se eu morrer será que vão chorar ? E se eu morrer será que vão lembrar ? E se eu morrer ? ... ( Já era) E se eu morrer ?... E se eu morrer... ( foi ! ... ) E se eu morrer ? Chega de ser subjulgado, subtraído, um subandido de um Sublugar, subtenente de um Subpaís, um subinfeliz.. Laiálaiá... Subjulgado, Subtraído, um subandido de um sublugar, subtenente de um subpaís, um subinfeliz.. Mas essa história eu volto a repetir, aconteceu numa cidade muito longe daqui, numa cidade muito longe, muito longe daqui, que tem favelas que parecem as favelas daqui e tem problemas que parecem os problemas daqui... daquí ... É isso aí Sapucay, polícia ou bandido?... Vai saber né ? ( Rapp de Marcelo D2 e Marcelo Sapucay)
POEMA
A Maicon
Eu olho αlém do que vejo, o olhαr de criαnçα, o sorriso inocente, e αtitudes de homem. Eu olho αlém do que vejo, αlém do que αs pessoαs pensαm, e os tαblóides especulαm, eu vejo um homem preso em um corpo de criαnçα, e diferente de todos, ele tem seu jeito próprio, prα quem não conhece é ridículo. Eu olho αlém do que vejo, tudo pαrece estrαnho mαs ele é tão normαl quαndo eu e você, tentα fαzer o melhor pαrα todos, mαs ninguém é perfeito.É tão difícil αcreditαr em αlguém que só vemos pelα tv ? E que todos dizem ser louco ! Prα mim não, por quê eu olho αlém do que vejo. ( Camila Barbosa)
E NÃO É
O Ford Bigode
Outro dia estava na varanda de minha casa viajando no resto de luz do sol, que subia o alto da serra depois de andar milhares de léguas pelas trilhas do infinito. O vento soprava rumo sul transformando aquele crepúsculo num momento ideal para empinar e dar cordas ao pensamento. Da janela entreaberta vi o relógio da sala esticar seus ponteiros e o “cuco” sair pela porta de sua casinha e anunciar que eram exatamente seis horas. Momento de reflexão. Do rádio do vizinho soava a “Ave Maria”, da Igreja vinha os sons dos sinos e da rua, uma confusão de vozes. Assim, fiquei em dúvida se rezava, escutava a melodia dos sinos, se prestava atenção no movimento da rua ou ainda se continuava a dar linha à imaginação. Fiquei com a última opção, já que ali não era o foro adequado para orações nem para os sons divinos e a passarela da rua naquela sexta-feira de feriado mostrava-se um tanto quanto censurada para um cidadão de meia idade, de cabelos grisalhos e quase sério. E num canto das minhas recordações encontrei uma prateleira com as histórias do meu “vô” Raimundo, e entre elas, em particular, uma que me foi contada quando estávamos sentados na escadinha do altar da Matriz de Santo Antônio. É que meu “vô” era um verdadeiro artista autodidata e sempre que precisa de restaurar partes antigas daquela Igreja, ele era chamado para colaborar nos retoques da torre, do altar, do teto e dos quadros de via sacra. Neste período minha diversão após as aulas era exatamente observar sua arte e me fartar com suas histórias engraçadas. Aquela ficou na memória. Ele me contou, enrolando seu cigarrinho de fumo de Ubá na palha de milho, que antigamente não existia estrada de automóvel na nossa comunidade, consequentemente quase ninguém conhecia carro. Um dia chegou no nosso lugarejo vindo de uma cidade grande, um coronel estudado, que também era dentista formado no Rio de Janeiro, comerciante de ouro, rico e amigo de um tal de Abraão Lincoln, Presidente dos Estados Unidos da América, que inclusive trocavam muitas correspondências. Fixou residência no distrito, tornou-se fazendeiro e com sua visão empreendedora, percebeu que ali precisava de uma estrada de carro para crescer e assim que conseguiu uma dúzia de braços e meia de enxadas, resolveu concretizar aquele sonho; afinal de contas era sua intenção adquirir um automóvel. A noticia espalhou, causando falatório nas missas, velórios e rodas de fogueira; medo e pavor em todo mundo, pois ninguém conhecia a tal da máquina que precisava de estrada larga e quase plana para caminhar e uma tal de gasolina para beber. Já tinha gente até acreditando que era um monstro que tomava mulher dos maridos, roça dos meeiros e até comia criancinhas quando estava com fome. Porém, em outros poucos que conseguiram juntar dinheiro com a venda de ouro, a notícia despertou grande interesse. E foi exatamente o que aconteceu com um muambeiro que dominava o comércio local e que sempre viajava à Capital com sua tropa de burros e mulas e era o fornecedor oficial de tudo na comunidade. O homem resolveu comprar um caminhãozinho, um tal de Ford Bigode. Não perdeu tempo, juntou todas as posses que guardava dentro dos colchões de capim e viajou para fazer a grande compra de sua vida. Os outros comerciantes de segundo naipe, perceberam a oportunidade de ganharem algum dinheiro extra na festa de inauguração da estrada e encomendaram ao portador, açúcar, farinha de trigo, fumo, enxada, canivete, seda, espelho, pente e até uma meia dúzia de caixões, pois quando alguém “batia as botas” era uma correria danada e as vezes precisava até encomendar um carpinteiro de fora para embrulhar o defunto. Para competir com o coronel recém chegado e mostrar prestígio, já que bem cedo tornaram-se desafetos, o mascate resolveu abreviar a sua chegada, colocar farofa no ventilador do líder emergente. Um dia antes da festa oficial, o viajante, agora de luxo, vinha muito mais gordo do que era de tanta felicidade em seu Fordinho, quando faltando 5 km para chegar na vila, avistou de longe uma turminha que parecia ter a mesma direção. Na curva, sem ser visto, resolveu testar a buzina do “danado”. Olha, espalhou homem para todo lado. O que teve de cana de milho quebrada na roça próxima do acontecido não foi brincadeira, um grande prejuízo para o plantador. Refeito o susto e porque estava começando a serenar, o causador daquele tumulto ofereceu uma carona para a turma, que visivelmente já estava “trocando as pernas”, visto que o Coronel tinha liberado a “marvada” para todos naquela semana. Era a oportunidade de equilibrar as forças políticas, a única recomendação era que não se assustassem, pois entre as mercadorias trazidas, havia alguns caixões, mas estavam todos vazios, era para vender na loja. O convite foi aceito de imediato e pessoal não cabia de satisfação, resolveram até se alojarem dentro dos féretros. Ao chegarem na rua principal, novamente espalhou gente para todo lado e nem isto acordou os “bebuns’ que pareciam encaixotados. Fazendo uma via sacra, o vendedor foi desfazendo das cargas. A última, era exatamente os caixões que deveriam ser entregues numa lojinha perto de onde existia uma ponte de braúna e cimento que foi levada pelas águas de março daquele ano. A loja estava fechada visto que a procissão voltava da rua de cima e era costume manter as portas daquele jeito nestas ocasiões. Estacionado em frente da loja com a carroceria aberta, o Ford Bigode reinava absoluto causando espanto e medo nos que seguiam o culto religioso. Formou-se até uma curva próximo da máquina, pois ninguém queria chegar perto daquela figura estranha que chamava a atenção mais do que a imagem nova de Santo que estava sendo benta naquele cortejo. E para contrabalançar aquele prestígio recente, o Padre caprichava na sua homilia: - “devemos orar sempre meus caríssimos, rezar muito, mas muito mesmo meus fiéis. É hora de afastar do nosso caminho, da nossa frente, todos os demônios, todos os monstros, principalmente para que, quando as almas levantarem de seus caixões, melhor dizendo, de suas sepulturas no juízo final... Que venham santificadas e puras, que venham em paz...” Neste instante, um foguete estourou do lado do caminhãozinho e os bêbados dorminhocos, acordaram de uma só vez, assustados com o estouro; abriram os caixões e “pernas para quem tem”. Pois bem, foi naquele dia que Santo Antônio ficou sozinho no meio da rua e toda a comunidade aprendeu a nadar de braçada, inclusive o Padre. Todos pularam no rio sem olhar para trás e a reza acabou do outro lado com todo mundo molhado. Santo Antônio foi colocado dentro do Ford Bigode pelo mascate para ser devolvido à Igreja. Mas antes, no primeiro ato de disputa política local, Santo Antônio e o mascate num passeio de gala, fizeram história inaugurando aquela estrada naquele dia... Foi a primeira disputa política da comunidade. E o Coronel que sonhava ser o centro das atenções e esperava o povo no adro da Igreja, recebeu muito sem graça, os três traidores heróis – O Santo, o Mascate e o Ford Bigode... E não é ?
Outro dia estava na varanda de minha casa viajando no resto de luz do sol, que subia o alto da serra depois de andar milhares de léguas pelas trilhas do infinito. O vento soprava rumo sul transformando aquele crepúsculo num momento ideal para empinar e dar cordas ao pensamento. Da janela entreaberta vi o relógio da sala esticar seus ponteiros e o “cuco” sair pela porta de sua casinha e anunciar que eram exatamente seis horas. Momento de reflexão. Do rádio do vizinho soava a “Ave Maria”, da Igreja vinha os sons dos sinos e da rua, uma confusão de vozes. Assim, fiquei em dúvida se rezava, escutava a melodia dos sinos, se prestava atenção no movimento da rua ou ainda se continuava a dar linha à imaginação. Fiquei com a última opção, já que ali não era o foro adequado para orações nem para os sons divinos e a passarela da rua naquela sexta-feira de feriado mostrava-se um tanto quanto censurada para um cidadão de meia idade, de cabelos grisalhos e quase sério. E num canto das minhas recordações encontrei uma prateleira com as histórias do meu “vô” Raimundo, e entre elas, em particular, uma que me foi contada quando estávamos sentados na escadinha do altar da Matriz de Santo Antônio. É que meu “vô” era um verdadeiro artista autodidata e sempre que precisa de restaurar partes antigas daquela Igreja, ele era chamado para colaborar nos retoques da torre, do altar, do teto e dos quadros de via sacra. Neste período minha diversão após as aulas era exatamente observar sua arte e me fartar com suas histórias engraçadas. Aquela ficou na memória. Ele me contou, enrolando seu cigarrinho de fumo de Ubá na palha de milho, que antigamente não existia estrada de automóvel na nossa comunidade, consequentemente quase ninguém conhecia carro. Um dia chegou no nosso lugarejo vindo de uma cidade grande, um coronel estudado, que também era dentista formado no Rio de Janeiro, comerciante de ouro, rico e amigo de um tal de Abraão Lincoln, Presidente dos Estados Unidos da América, que inclusive trocavam muitas correspondências. Fixou residência no distrito, tornou-se fazendeiro e com sua visão empreendedora, percebeu que ali precisava de uma estrada de carro para crescer e assim que conseguiu uma dúzia de braços e meia de enxadas, resolveu concretizar aquele sonho; afinal de contas era sua intenção adquirir um automóvel. A noticia espalhou, causando falatório nas missas, velórios e rodas de fogueira; medo e pavor em todo mundo, pois ninguém conhecia a tal da máquina que precisava de estrada larga e quase plana para caminhar e uma tal de gasolina para beber. Já tinha gente até acreditando que era um monstro que tomava mulher dos maridos, roça dos meeiros e até comia criancinhas quando estava com fome. Porém, em outros poucos que conseguiram juntar dinheiro com a venda de ouro, a notícia despertou grande interesse. E foi exatamente o que aconteceu com um muambeiro que dominava o comércio local e que sempre viajava à Capital com sua tropa de burros e mulas e era o fornecedor oficial de tudo na comunidade. O homem resolveu comprar um caminhãozinho, um tal de Ford Bigode. Não perdeu tempo, juntou todas as posses que guardava dentro dos colchões de capim e viajou para fazer a grande compra de sua vida. Os outros comerciantes de segundo naipe, perceberam a oportunidade de ganharem algum dinheiro extra na festa de inauguração da estrada e encomendaram ao portador, açúcar, farinha de trigo, fumo, enxada, canivete, seda, espelho, pente e até uma meia dúzia de caixões, pois quando alguém “batia as botas” era uma correria danada e as vezes precisava até encomendar um carpinteiro de fora para embrulhar o defunto. Para competir com o coronel recém chegado e mostrar prestígio, já que bem cedo tornaram-se desafetos, o mascate resolveu abreviar a sua chegada, colocar farofa no ventilador do líder emergente. Um dia antes da festa oficial, o viajante, agora de luxo, vinha muito mais gordo do que era de tanta felicidade em seu Fordinho, quando faltando 5 km para chegar na vila, avistou de longe uma turminha que parecia ter a mesma direção. Na curva, sem ser visto, resolveu testar a buzina do “danado”. Olha, espalhou homem para todo lado. O que teve de cana de milho quebrada na roça próxima do acontecido não foi brincadeira, um grande prejuízo para o plantador. Refeito o susto e porque estava começando a serenar, o causador daquele tumulto ofereceu uma carona para a turma, que visivelmente já estava “trocando as pernas”, visto que o Coronel tinha liberado a “marvada” para todos naquela semana. Era a oportunidade de equilibrar as forças políticas, a única recomendação era que não se assustassem, pois entre as mercadorias trazidas, havia alguns caixões, mas estavam todos vazios, era para vender na loja. O convite foi aceito de imediato e pessoal não cabia de satisfação, resolveram até se alojarem dentro dos féretros. Ao chegarem na rua principal, novamente espalhou gente para todo lado e nem isto acordou os “bebuns’ que pareciam encaixotados. Fazendo uma via sacra, o vendedor foi desfazendo das cargas. A última, era exatamente os caixões que deveriam ser entregues numa lojinha perto de onde existia uma ponte de braúna e cimento que foi levada pelas águas de março daquele ano. A loja estava fechada visto que a procissão voltava da rua de cima e era costume manter as portas daquele jeito nestas ocasiões. Estacionado em frente da loja com a carroceria aberta, o Ford Bigode reinava absoluto causando espanto e medo nos que seguiam o culto religioso. Formou-se até uma curva próximo da máquina, pois ninguém queria chegar perto daquela figura estranha que chamava a atenção mais do que a imagem nova de Santo que estava sendo benta naquele cortejo. E para contrabalançar aquele prestígio recente, o Padre caprichava na sua homilia: - “devemos orar sempre meus caríssimos, rezar muito, mas muito mesmo meus fiéis. É hora de afastar do nosso caminho, da nossa frente, todos os demônios, todos os monstros, principalmente para que, quando as almas levantarem de seus caixões, melhor dizendo, de suas sepulturas no juízo final... Que venham santificadas e puras, que venham em paz...” Neste instante, um foguete estourou do lado do caminhãozinho e os bêbados dorminhocos, acordaram de uma só vez, assustados com o estouro; abriram os caixões e “pernas para quem tem”. Pois bem, foi naquele dia que Santo Antônio ficou sozinho no meio da rua e toda a comunidade aprendeu a nadar de braçada, inclusive o Padre. Todos pularam no rio sem olhar para trás e a reza acabou do outro lado com todo mundo molhado. Santo Antônio foi colocado dentro do Ford Bigode pelo mascate para ser devolvido à Igreja. Mas antes, no primeiro ato de disputa política local, Santo Antônio e o mascate num passeio de gala, fizeram história inaugurando aquela estrada naquele dia... Foi a primeira disputa política da comunidade. E o Coronel que sonhava ser o centro das atenções e esperava o povo no adro da Igreja, recebeu muito sem graça, os três traidores heróis – O Santo, o Mascate e o Ford Bigode... E não é ?
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