O Ford Bigode
Outro dia estava na varanda de minha casa viajando no resto de luz do sol, que subia o alto da serra depois de andar milhares de léguas pelas trilhas do infinito. O vento soprava rumo sul transformando aquele crepúsculo num momento ideal para empinar e dar cordas ao pensamento. Da janela entreaberta vi o relógio da sala esticar seus ponteiros e o “cuco” sair pela porta de sua casinha e anunciar que eram exatamente seis horas. Momento de reflexão. Do rádio do vizinho soava a “Ave Maria”, da Igreja vinha os sons dos sinos e da rua, uma confusão de vozes. Assim, fiquei em dúvida se rezava, escutava a melodia dos sinos, se prestava atenção no movimento da rua ou ainda se continuava a dar linha à imaginação. Fiquei com a última opção, já que ali não era o foro adequado para orações nem para os sons divinos e a passarela da rua naquela sexta-feira de feriado mostrava-se um tanto quanto censurada para um cidadão de meia idade, de cabelos grisalhos e quase sério. E num canto das minhas recordações encontrei uma prateleira com as histórias do meu “vô” Raimundo, e entre elas, em particular, uma que me foi contada quando estávamos sentados na escadinha do altar da Matriz de Santo Antônio. É que meu “vô” era um verdadeiro artista autodidata e sempre que precisa de restaurar partes antigas daquela Igreja, ele era chamado para colaborar nos retoques da torre, do altar, do teto e dos quadros de via sacra. Neste período minha diversão após as aulas era exatamente observar sua arte e me fartar com suas histórias engraçadas. Aquela ficou na memória. Ele me contou, enrolando seu cigarrinho de fumo de Ubá na palha de milho, que antigamente não existia estrada de automóvel na nossa comunidade, consequentemente quase ninguém conhecia carro. Um dia chegou no nosso lugarejo vindo de uma cidade grande, um coronel estudado, que também era dentista formado no Rio de Janeiro, comerciante de ouro, rico e amigo de um tal de Abraão Lincoln, Presidente dos Estados Unidos da América, que inclusive trocavam muitas correspondências. Fixou residência no distrito, tornou-se fazendeiro e com sua visão empreendedora, percebeu que ali precisava de uma estrada de carro para crescer e assim que conseguiu uma dúzia de braços e meia de enxadas, resolveu concretizar aquele sonho; afinal de contas era sua intenção adquirir um automóvel. A noticia espalhou, causando falatório nas missas, velórios e rodas de fogueira; medo e pavor em todo mundo, pois ninguém conhecia a tal da máquina que precisava de estrada larga e quase plana para caminhar e uma tal de gasolina para beber. Já tinha gente até acreditando que era um monstro que tomava mulher dos maridos, roça dos meeiros e até comia criancinhas quando estava com fome. Porém, em outros poucos que conseguiram juntar dinheiro com a venda de ouro, a notícia despertou grande interesse. E foi exatamente o que aconteceu com um muambeiro que dominava o comércio local e que sempre viajava à Capital com sua tropa de burros e mulas e era o fornecedor oficial de tudo na comunidade. O homem resolveu comprar um caminhãozinho, um tal de Ford Bigode. Não perdeu tempo, juntou todas as posses que guardava dentro dos colchões de capim e viajou para fazer a grande compra de sua vida. Os outros comerciantes de segundo naipe, perceberam a oportunidade de ganharem algum dinheiro extra na festa de inauguração da estrada e encomendaram ao portador, açúcar, farinha de trigo, fumo, enxada, canivete, seda, espelho, pente e até uma meia dúzia de caixões, pois quando alguém “batia as botas” era uma correria danada e as vezes precisava até encomendar um carpinteiro de fora para embrulhar o defunto. Para competir com o coronel recém chegado e mostrar prestígio, já que bem cedo tornaram-se desafetos, o mascate resolveu abreviar a sua chegada, colocar farofa no ventilador do líder emergente. Um dia antes da festa oficial, o viajante, agora de luxo, vinha muito mais gordo do que era de tanta felicidade em seu Fordinho, quando faltando 5 km para chegar na vila, avistou de longe uma turminha que parecia ter a mesma direção. Na curva, sem ser visto, resolveu testar a buzina do “danado”. Olha, espalhou homem para todo lado. O que teve de cana de milho quebrada na roça próxima do acontecido não foi brincadeira, um grande prejuízo para o plantador. Refeito o susto e porque estava começando a serenar, o causador daquele tumulto ofereceu uma carona para a turma, que visivelmente já estava “trocando as pernas”, visto que o Coronel tinha liberado a “marvada” para todos naquela semana. Era a oportunidade de equilibrar as forças políticas, a única recomendação era que não se assustassem, pois entre as mercadorias trazidas, havia alguns caixões, mas estavam todos vazios, era para vender na loja. O convite foi aceito de imediato e pessoal não cabia de satisfação, resolveram até se alojarem dentro dos féretros. Ao chegarem na rua principal, novamente espalhou gente para todo lado e nem isto acordou os “bebuns’ que pareciam encaixotados. Fazendo uma via sacra, o vendedor foi desfazendo das cargas. A última, era exatamente os caixões que deveriam ser entregues numa lojinha perto de onde existia uma ponte de braúna e cimento que foi levada pelas águas de março daquele ano. A loja estava fechada visto que a procissão voltava da rua de cima e era costume manter as portas daquele jeito nestas ocasiões. Estacionado em frente da loja com a carroceria aberta, o Ford Bigode reinava absoluto causando espanto e medo nos que seguiam o culto religioso. Formou-se até uma curva próximo da máquina, pois ninguém queria chegar perto daquela figura estranha que chamava a atenção mais do que a imagem nova de Santo que estava sendo benta naquele cortejo. E para contrabalançar aquele prestígio recente, o Padre caprichava na sua homilia: - “devemos orar sempre meus caríssimos, rezar muito, mas muito mesmo meus fiéis. É hora de afastar do nosso caminho, da nossa frente, todos os demônios, todos os monstros, principalmente para que, quando as almas levantarem de seus caixões, melhor dizendo, de suas sepulturas no juízo final... Que venham santificadas e puras, que venham em paz...” Neste instante, um foguete estourou do lado do caminhãozinho e os bêbados dorminhocos, acordaram de uma só vez, assustados com o estouro; abriram os caixões e “pernas para quem tem”. Pois bem, foi naquele dia que Santo Antônio ficou sozinho no meio da rua e toda a comunidade aprendeu a nadar de braçada, inclusive o Padre. Todos pularam no rio sem olhar para trás e a reza acabou do outro lado com todo mundo molhado. Santo Antônio foi colocado dentro do Ford Bigode pelo mascate para ser devolvido à Igreja. Mas antes, no primeiro ato de disputa política local, Santo Antônio e o mascate num passeio de gala, fizeram história inaugurando aquela estrada naquele dia... Foi a primeira disputa política da comunidade. E o Coronel que sonhava ser o centro das atenções e esperava o povo no adro da Igreja, recebeu muito sem graça, os três traidores heróis – O Santo, o Mascate e o Ford Bigode... E não é ?
Outro dia estava na varanda de minha casa viajando no resto de luz do sol, que subia o alto da serra depois de andar milhares de léguas pelas trilhas do infinito. O vento soprava rumo sul transformando aquele crepúsculo num momento ideal para empinar e dar cordas ao pensamento. Da janela entreaberta vi o relógio da sala esticar seus ponteiros e o “cuco” sair pela porta de sua casinha e anunciar que eram exatamente seis horas. Momento de reflexão. Do rádio do vizinho soava a “Ave Maria”, da Igreja vinha os sons dos sinos e da rua, uma confusão de vozes. Assim, fiquei em dúvida se rezava, escutava a melodia dos sinos, se prestava atenção no movimento da rua ou ainda se continuava a dar linha à imaginação. Fiquei com a última opção, já que ali não era o foro adequado para orações nem para os sons divinos e a passarela da rua naquela sexta-feira de feriado mostrava-se um tanto quanto censurada para um cidadão de meia idade, de cabelos grisalhos e quase sério. E num canto das minhas recordações encontrei uma prateleira com as histórias do meu “vô” Raimundo, e entre elas, em particular, uma que me foi contada quando estávamos sentados na escadinha do altar da Matriz de Santo Antônio. É que meu “vô” era um verdadeiro artista autodidata e sempre que precisa de restaurar partes antigas daquela Igreja, ele era chamado para colaborar nos retoques da torre, do altar, do teto e dos quadros de via sacra. Neste período minha diversão após as aulas era exatamente observar sua arte e me fartar com suas histórias engraçadas. Aquela ficou na memória. Ele me contou, enrolando seu cigarrinho de fumo de Ubá na palha de milho, que antigamente não existia estrada de automóvel na nossa comunidade, consequentemente quase ninguém conhecia carro. Um dia chegou no nosso lugarejo vindo de uma cidade grande, um coronel estudado, que também era dentista formado no Rio de Janeiro, comerciante de ouro, rico e amigo de um tal de Abraão Lincoln, Presidente dos Estados Unidos da América, que inclusive trocavam muitas correspondências. Fixou residência no distrito, tornou-se fazendeiro e com sua visão empreendedora, percebeu que ali precisava de uma estrada de carro para crescer e assim que conseguiu uma dúzia de braços e meia de enxadas, resolveu concretizar aquele sonho; afinal de contas era sua intenção adquirir um automóvel. A noticia espalhou, causando falatório nas missas, velórios e rodas de fogueira; medo e pavor em todo mundo, pois ninguém conhecia a tal da máquina que precisava de estrada larga e quase plana para caminhar e uma tal de gasolina para beber. Já tinha gente até acreditando que era um monstro que tomava mulher dos maridos, roça dos meeiros e até comia criancinhas quando estava com fome. Porém, em outros poucos que conseguiram juntar dinheiro com a venda de ouro, a notícia despertou grande interesse. E foi exatamente o que aconteceu com um muambeiro que dominava o comércio local e que sempre viajava à Capital com sua tropa de burros e mulas e era o fornecedor oficial de tudo na comunidade. O homem resolveu comprar um caminhãozinho, um tal de Ford Bigode. Não perdeu tempo, juntou todas as posses que guardava dentro dos colchões de capim e viajou para fazer a grande compra de sua vida. Os outros comerciantes de segundo naipe, perceberam a oportunidade de ganharem algum dinheiro extra na festa de inauguração da estrada e encomendaram ao portador, açúcar, farinha de trigo, fumo, enxada, canivete, seda, espelho, pente e até uma meia dúzia de caixões, pois quando alguém “batia as botas” era uma correria danada e as vezes precisava até encomendar um carpinteiro de fora para embrulhar o defunto. Para competir com o coronel recém chegado e mostrar prestígio, já que bem cedo tornaram-se desafetos, o mascate resolveu abreviar a sua chegada, colocar farofa no ventilador do líder emergente. Um dia antes da festa oficial, o viajante, agora de luxo, vinha muito mais gordo do que era de tanta felicidade em seu Fordinho, quando faltando 5 km para chegar na vila, avistou de longe uma turminha que parecia ter a mesma direção. Na curva, sem ser visto, resolveu testar a buzina do “danado”. Olha, espalhou homem para todo lado. O que teve de cana de milho quebrada na roça próxima do acontecido não foi brincadeira, um grande prejuízo para o plantador. Refeito o susto e porque estava começando a serenar, o causador daquele tumulto ofereceu uma carona para a turma, que visivelmente já estava “trocando as pernas”, visto que o Coronel tinha liberado a “marvada” para todos naquela semana. Era a oportunidade de equilibrar as forças políticas, a única recomendação era que não se assustassem, pois entre as mercadorias trazidas, havia alguns caixões, mas estavam todos vazios, era para vender na loja. O convite foi aceito de imediato e pessoal não cabia de satisfação, resolveram até se alojarem dentro dos féretros. Ao chegarem na rua principal, novamente espalhou gente para todo lado e nem isto acordou os “bebuns’ que pareciam encaixotados. Fazendo uma via sacra, o vendedor foi desfazendo das cargas. A última, era exatamente os caixões que deveriam ser entregues numa lojinha perto de onde existia uma ponte de braúna e cimento que foi levada pelas águas de março daquele ano. A loja estava fechada visto que a procissão voltava da rua de cima e era costume manter as portas daquele jeito nestas ocasiões. Estacionado em frente da loja com a carroceria aberta, o Ford Bigode reinava absoluto causando espanto e medo nos que seguiam o culto religioso. Formou-se até uma curva próximo da máquina, pois ninguém queria chegar perto daquela figura estranha que chamava a atenção mais do que a imagem nova de Santo que estava sendo benta naquele cortejo. E para contrabalançar aquele prestígio recente, o Padre caprichava na sua homilia: - “devemos orar sempre meus caríssimos, rezar muito, mas muito mesmo meus fiéis. É hora de afastar do nosso caminho, da nossa frente, todos os demônios, todos os monstros, principalmente para que, quando as almas levantarem de seus caixões, melhor dizendo, de suas sepulturas no juízo final... Que venham santificadas e puras, que venham em paz...” Neste instante, um foguete estourou do lado do caminhãozinho e os bêbados dorminhocos, acordaram de uma só vez, assustados com o estouro; abriram os caixões e “pernas para quem tem”. Pois bem, foi naquele dia que Santo Antônio ficou sozinho no meio da rua e toda a comunidade aprendeu a nadar de braçada, inclusive o Padre. Todos pularam no rio sem olhar para trás e a reza acabou do outro lado com todo mundo molhado. Santo Antônio foi colocado dentro do Ford Bigode pelo mascate para ser devolvido à Igreja. Mas antes, no primeiro ato de disputa política local, Santo Antônio e o mascate num passeio de gala, fizeram história inaugurando aquela estrada naquele dia... Foi a primeira disputa política da comunidade. E o Coronel que sonhava ser o centro das atenções e esperava o povo no adro da Igreja, recebeu muito sem graça, os três traidores heróis – O Santo, o Mascate e o Ford Bigode... E não é ?
