Naquele dia o sino da Igreja que sempre anunciava a Ave Maria às dezoito horas, não tocou na hora certa. É que o Mazinho, o Brocha e eu, coroinhas oficiais da paróquia, estávamos em missão especial e não conseguimos chegar mais cedo na casa de Deus. O Mato da Chácara era longe da rua e principalmente porque voltamos pelo Cruzeiro para não sermos vistos carregando cipó. Atrasamos exatamente vinte minutos, contando com o tempo que levamos para entrar na Igreja que nem fantasma e voarmos pelos cinqüenta e sete degraus de escada até a torre. Mas tocamos os sinos religiosamente e quando terminamos o ofício, já não havia ninguém por perto. Até as beatas já tinham “escafedido”, razão pela qual foi possível jogar a ponta do cipó são João cá embaixo sem risco. Descemos sorrateiramente e passamos rapidinho pelo altar para pedirmos perdão pelos fatos que já estavam programados em nossas mentes para acontecer. Ao sinal da cruz e numa reunião extraordinária, O Mazinho ficou encarregado das bombinhas, do cigarro e do fósforo; o Brocha, do saco e da cordinha e eu, da caixa de papelão e do gato que o Garagem havia me emprestado, com o pretexto de à noite espantar os ratos da “venda” do meu pai. Encontraríamos novamente à meia noite, debaixo do pé de jenipapo, de frente das escadarias da porta principal da Igreja. Era um dia de sexta-feira, mas mesmo assim vestimos nossas domingueiras e fomos fazer uma via sacra pela comunidade, ao som dos beatles, do Roberto Carlos e algum sertanejo que fluía suavemente do meu radinho de pilha; um de cada vez. Tudo estava planejado nos mínimos detalhes e não queríamos despertar nenhuma suspeita. Dez para meia noite nos dispersamos. Cada um para seu lado. Entretanto no horário e local combinados, lá estávamos, com as bombinhas, os dois cigarros da marca Mistura Fina, a caixinha de fósforo pinheiro, o saco, a cordinha, a caixa de papelão, o gato. Na torre, o cipó pendurado com a ponta amarrada no sino caçula. O lugar e seus moradores estavam em estado de letargia. Todas as portas e janelas fechadas e aquela gente dormia silenciosamente. Com habilidade de mestres em peraltices, amarramos a outra ponta do cipó no meio do corpo do gato com cuidado para não sermos arranhados. Aninhamos de mansinho o gato no saco e demos um laço frouxo na ponta com a cordinha. O Mazinho pitou os dois cigarros até na metade e espetou o estopim das bombinhas no que sobrou. O Brocha colocou os cigarros com as bombinhas espetadas dentro da caixinha de papelão ao lado do saco com o gato. Saímos de fininho e pelas sombras. Já quase na rua de cima, ouvimos dois estrondos e em seguida as badaladas descompassadas do sino da Igreja. Para quem estava dormindo, não restava dúvida. Naquela hora, o sino batendo sozinho... Era assombração, mesmo ! Entramos em casa correndo, trocamos nossas domingueiras por roupas comuns sem ser vistos, assanhamos nossos cabelos, fizemos cara de sono e voltamos p’ra rua como se estivéssemos também apavorados . Naquela madrugada, ninguém dormiu mais, e o assunto era um só: aquilo era coisa das almas que em tempos passados haviam sido sepultadas naquele lugar. Ninguém teve coragem de subir a rua da praça até a Igreja. Foi a primeira vez que vimos um padre de cueca junto de seus fiéis. Cinco minutos de sino tocando e de pavor geral. De repente, o silêncio coincidiu exatamente com um gato preto correndo pelo Adro da Igreja rumo á rua. Era ele, o gato do Garagem e mais uma vez foi gente p’ra todo lado. Amanhecemos no “Buteco” do Alfredinho que abriu as portas e colocou seu lampeão aladim pendurado na janela. A expressão de quase todos era de susto e medo. O assunto perdurou por vários dias. Até que num domingo, o dono do Mato da Chácara em conversa com o vigário que filava um franguinho com quiabo na mesa da Dona Maria, lembrou em conversa informal, que quem pediu permissão para tirar cipó no terreno dele, éramos nós: O Mazinho, o Brocha e eu. E assim a casa caiu... Pois bem, perdemos nosso “status” de coroinha da paróquia, nosso assento no banco dos Apóstolos no Lava-Pés da Semana Santa e nosso lugarzinho no time de futebol de meninos, em que o Padre era o técnico. Mas, a Igreja ganhou: - passou a gastar menos farinha de trigo p’ra fazer suas hóstias, o azeite do santíssimo não acendeu mais nossa churrasqueira de pedra na praia e ainda, os franguinhos da casa do vigário pararam de sumir e o Padre passou a beber vinho puro nas missas, isto é, sem a mistura de metade de água ...E não é ? ( w.catizany )
