OS PINTINHOS DA GALINHA DO TOTÓ
Há mais de uma década ele apareceu vindo lá das bandas de trás da serra. Um caboclo franzino, meio gago e de passos de gazela assustada, que depois de perambular pelos principais cantos se arranchou confortavelmente num pequeno imóvel abandonado, mas público. Foi “adotado” quase de imediato, por famílias do lugar. Em pouco tempo se transformou em varredor de terreiro, em lavador de prato, enfim em ofice-boy da comunidade. Em troca, não fazia muita questão, recebia os desjejuns do dia, a bóia de sempre e algumas mudas de roupa. Criou laços de afetividade e foi se acostumando à boa vida e à hospitalidade das pessoas. Entre tantos apelidos que recebeu, prevaleceu o de Totó. E assim foi, além do que esperava, em pouco tempo tornou-se cidadão ao receber seu registro; posteriormente, virou também eleitor do município. Era época de eleição e sem cerimônia prometeu seu voto para quase uma dúzia de candidatos, mas barganhou em sigilo; precisava de todos. O tempo foi passando e sem nunca ter trabalhado, conseguiu sua aposentadoria. No quinto dia útil de cada mês, toma seu banho, veste sua domingueira e é o primeiro da fila do banco. Totó, além das novelas da Globo, de tirar uma sonequinha na volta do dia e de vez em quando visitar as “tias”de Itabira, gosta mesmo é de colher alguns ovos das galinhas que detestam rotina e pulam a cerca, fazendo seus ninhos fora de seus galinheiros, nas adjacências de seu barraco. Uns vão direto p’ra frigideira, em outros ele investe, isto é, coloca p’ra chocar e, já ensaia em virar empreendedor. Outro dia, como sempre faço nos fins de tarde, isto é, quando estou de férias, fui ver a hora passar sentado naquela pedra perto do Ingá, na beira do poço das capivaras em frente à pousada. E antes que eu desse corda e soltasse a imaginação, o Totó chegou. Puxou conversa. Perguntou sobre a família, que dia eu havia chegado, falou de sua participação na marujada, relatou fielmente os últimos acontecimentos da cidade. Falou até da exuberância da horta da Geralda do Bebé. Foi quando ouvimos o cacarejá intenso e contínuo de uma galinha assustada. Levantei-me ligeiro pensando que fosse presságio de uma cobra venenosa por perto. Mas o Totó me acalmou dizendo que era a pretinha, uma de suas galinhas. Que aquilo era simplesmente preocupação de mãe; uma forma dela “raiar” com seus pintinhos que estavam nadando longe da margem do rio. Assustei e exclamei, essa não, você tem certeza ? Pintinhos nadando ! E o Totó na maior naturalidade, resmungou: - Eeeeeeé ... É isso mesmo e eles aprenderam a nadar porque trato deles só com ração de peixe. E bem admirado, deixei que meu pensamento falasse baixinho – Pintinho que nada ! É só mesmo na minha terra ! ... E não é ? ( w. catizany )
