Pois é, esta é mais uma história que circula no arquivo não escrito das mentes dos meus conterrâneos. O ano era 1967 e na cidade ainda existia o centenário jenipapo no adro da Igreja, o poço da canoa, o salão paroquial, as lojas do Gentil Rufino e do João Andrade, o mato da chácara, o chafariz Doutor Jorge Saffe e a atual rua Joaquim Duarte Neto era rua de Cima, parte da rua Silvestre da Costa Lage era rua Direita e a rua Major Quintão, rua de Baixo; a luz ainda era de graça, a da lua, e quando ela estava de folga, as noites eram de uma escuridão quase total; na porta de quase todas as casas existia um banquinho e nas noites frias sempre ardia um foguinho de brasas, rodeado por meia dúzia de gente numa prosa animada, uma cantoria desafinada ou uma história de assombração contada pelos mais velhos. Nas sextas e nos sábados a rotina era quebrada; o pessoal das áreas rurais vinha para a rua e esticava o final de semana. Os “butecos” do Alfredinho, do João Agenor e do Antônio Ramiro ficavam cheios e as conversas abordavam todos os assuntos. Era comum, entre os rapazes, a galinhada de galinha roubada, cozida num fogão improvisado no lajeado da praia; entre os maldosos, o ofício era o corte dos bigodes e cabelos daqueles que abusavam da “mardita” da Fazenda Nova, mas de um único lado. No outro dia quando o sujeito olhava no espelho era uma farra. Mas também havia a inversão dos arreios dos animais do pessoal da roça que já bem alto montava de costa, ficava bravo e às vezes até terminava em confusão, mas era apaziguada pela turma do "deixa disso"; e, para fechar a programação numa confraternização, não podia faltar a serenata com de “radiola de pilha” e disco de vinil. Existiam também, aqueles que só iam para a rua bebericar algumas, e não tinham nenhum limite; dentre eles, havia um que era ímpar: o Zé do Pedro "Barba". Um caboclo baixo, nem gordo e nem magro, forte, calado, chapéu enterrado na cabeça, observador e supersticioso, que marcava ponto sempre na ponta esquerda do balcão da venda do João Agenor. Tinha uma rotina inusitada: tomava uma, duas, três e depois de beber a vigésima sétima, lá pela meia noite, saia de mansinho, fazendo de duro e ia "verter" água, atrás do pé de vinhático do lado do cemitério. Lá ficava alguns instantes observando as sepulturas dos mortos, pois acreditava que de noite saia fogo das sepulturas e os espíritos vagavam. Depois voltava calado, pegava um garrafão da “branquinha” para a semana seguinte, pagava a conta e saía medindo a largura da rua ( e olhe que eram sete metros), rumo à sua casinha nas encostas do Tabuleiro. No mês de maio existiam as rezas e os leilões e, os fins de semana eram os melhores do ano e os mais concorridos. A brincadeira dos jovens, era uma atração à parte e se constituía em dividir em grupos, liderados pelos mais espertos e literalmente “tomar” o leilão de quem o arrematou, escondendo a prenda num local seguro, para depois de muito divertimento, dividir com o “bobo da corte” (aquele que pagava a conta), o produto do "furto". E é justamente sobre isto, o nosso causo. Num sábado de final de maio, o Nonô arrematou um frango assado com algumas frutas numa travessa de vidro e a turma do Geraldo Jorgino “garfou” a prenda e a escondeu numa sacola de papel, pendurando-a no portão do cemitério, local seguro, onde pouquíssimas pessoas arriscariam procurar o petisco, naquela hora. Após a meia noite e realizados os rituais normais de gozação, quando o domingo já tinha cumprimentado o sábado que já sumia na esquina da rua, o pessoal se dividiu como de costume. Parte, foi buscar os discos e a radiola para o início da serenata, outra, foi preparar a galinhada da praia. O Divino e o Geraldo foram fazer a partilha do leilão. Sentados nos degraus da portaria do cemitério, numa escuridão danada, iniciaram a divisão com a seguinte conversa: - metade do frango é sua e metade é minha; quanto às frutas - uma p’ra mim, uma p'ra você, uma para o Nonô; outra p’ra mim, outra p’ra você, outra para o Nonô. Nono foi quem pagou o leilão ao “Bastião Garagem”, leiloeiro oficial daquela noite . Neste momento, o Zé do Pedro “Barba”, já meio apertado, chegou sorrateiramente ao local de sempre para o ritual de mijar atrás do pé de vinhático. Olhou para um lado, olhou para o outro, espichou a mangueira e molhou até o chinelo. Quando ia dar a tradicional balançada, escutou algumas vozes - “Um p’ra mim, outro p’ra você, outro p’ra ele. E como no “buteco” estavam discutindo política e ele já era cismado com algumas histórias de eleição, de cara cheia, pensou: “até nisso tem disputa, olha lá, o diabo e o São Pedro dividindo os votos das almas, espia lá. Enquanto isso, os dois que faziam a divisão das frutas, deixaram um limão cair e rolar para debaixo do pé do Vinhático, quase na rua. O Geraldo, que havia terminado a divisão, falou: “agora vamos pegar aquele que está lá embaixo... E o Zé do Pedro “Barba” já se sentindo uma alma desgarrada, tomou um baita susto com aquela conversa, virando uma ventania pela rua acima. E nos seus resmungos ele dizia que ainda estava vivo e que deixasse ele de lado, pois ele não ia participar daquela safadeza... Passou direto pelo João Agenor e nem pegou o suprimento da semana seguinte. No outro dia, o mijão, mandou pagar a conta e mudou de “buteco” e jurou nunca tirar o título eleitoral, mas sempre no mesmo horário e após a vigésima sétima dose continuou tirando a água do joelho. Depois daquele dia, no Ingá da ponte... E não é ? …(w. catizany )
