segunda-feira, 1 de junho de 2009

E NÃO É

O BEBUM

Na terrinha, nos tempos idos, o que mais a gente esperava era os fins de tarde, quando juntava parte da meninada da rua para brincar. Era a “peladinha de sempre”, o “finca”, o “Brasil contra a Alemanha”, o “31 de janeiro”, o “polícia e o ladrão”, etc. Uma algazarra geral que às vezes até incomodava os vizinhos. Eu gostava mesmo era das histórias do Tião Garagem, do Tonho do Augusto, do Zé Cândido, do Chiquinho e do Zé da Nega, cinco conterrâneos da rua de cima que todos os dias após o trabalho braçal, enxugarem uma pinguinha “arretada” e tomarem um banho na cachoeira, faziam ponto na “boca da ponte” p’ra prosearem e aguardarem a hora de colocar o esqueleto na horizontal. Ali a gente ficava conhecendo através deles, a roça mais produtiva, a melhor marca de fumo, o tamanho do peixe fisgado e perdido, o perigo de um cascavel amoitado nas ramas do feijão miúdo, o produtor da melhor cachaça, os blefadores do truco, os locais assombrados, enfim as histórias antigas do povo e do lugar. E eu vibrava com as interpretações, com as risadas e as narrativas simples mas rica de detalhes daqueles exímios contadores de causos. Preferia sempre ouvir aquele quinteto do que brincar com pessoal da minha idade. Ainda recordo das gargalhadas quando um deles contou a história do “Gélo” acontecida nos fins dos anos sessenta. O distinto personagem morava lá pelas bandas do Tabuleiro e quando aparecia na rua, bebia vinte quatro horas seguidas, sete dias por semana e às vezes trinta dias no mês; uma barbaridade. A família do “bebum” já andava preocupada com sua saúde, com as gozações do pessoal da rua e as dívidas nos “butecos”, principalmente no Joãogenor”. Mas nosso amigo, apesar da bebida, era engraçado, uma pessoa folclórica, responsável, honesto e bom pagador. Nos momentos de abstinência trabalhava que nem um condenado e mantinha seu nome sempre limpo junto às pessoas e aos comerciantes. Num período que nosso amigo invernou na bebida, os gozadores de carteirinha da rua, resolveram aprontar com o distinto; uma brincadeira infeliz e sinistra, uma idéia horrível, mas é lógico que com conhecimento e aprovação de sua família. Era uma espécie de “simpatia” para livrar o homem da “marvada”. Pegaram o “Gélo” dormindo e bêbado como sempre e aproveitando que estavam capinando e limpando o “campo santo”, o levaram para o cemitério, onde o colocaram num túmulo semi-aberto, que com certeza iria receber algum desencarnado no dia seguinte. Montaram um palco e ficaram por perto à espreita dos acontecimentos. Quem sabe que, com aquela lição, ele parava de beber. Passado algum tempo, alguém chegou “amoniaco” no nariz do falso morto e ele acordou assustado naquele cenário e botou a boca no mundo: - Cruz credo ! Onde estou? Que lugar é este ?... Algumas pessoas, propositalmente desconhecidas, que estavam rezando de mentirinha, naturalmente num suposto túmulo do lado, disseram: - Você morreu, morreu de tanto beber, seu corpo vai ser enterrado nesta tarde e sua alma vai viajar ainda hoje por este infinito até o céu. Este é o seu velório... O “Gélo”, pensativo e sério, sem perder as estribeiras, olhou para um lado e para outro, contorceu o corpo magrelo, conseguiu ficar sentado e piscando além do normal, indagou: Ei, ei, pessoal, o Joãogenor fica longe daqui ? ... Preciso tomar uma saideira... Vamos que nessa minha viagem que vai ser longa, não encontro nenhum “buteco” na beira da estrada, né ? ... E não é ? (w.catizany)