quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

E NÃO É

Até os destemidos fraquejam

A noite anterior àquele vinte sete de julho tinha sido de lua cheia e o dia chegou com um vento hostil e frio que incomodava as pessoas queimando-lhes o rosto, fazendo voar folhas, balançar galhos de árvores e levantar as saias das mulheres desprevenidas. Às seis e meia da manhã, ainda havia um crepúsculo negro nos arredores da cidade, envolta num manto branco de névoa. Pouco a pouco as pessoas iam colocando o nariz para fora das casas e o movimento tomava conta das ruas. Eram algumas pessoas que gostavam de fazer uma caminhada bem cedinho no Balneário, outras, que se dirigiam para o ponto de ônibus, e mais, os funcionários da Prefeitura que começavam a providenciar as vassouras, as enxadas, as pás e outras ferramentas para a rotina do dia-a-dia e que sempre se juntavam em grupos para aguardar a condução que os levaria ao local das frentes de serviço. E é ali, perto da minha casa na boca da ponte que também é praça, o ponto de encontro de todos. Principalmente daqueles que vão tomar rumo norte - Serra, Colônia, Pindiu ou Tabuleiro. E é ali, exatamente ali que as primeiras conversas do dia, desatam: - “bom dia compadre“, “tudo bem boiola”, “será que vai chover, peão ”, " tem uma p”ra te contar, bicho”; enfim é ali, que muitos aproveitam para jogar conversa fora e desenrolar lorotas e histórias. E é também dali, quando estou de férias, do banco de madeira da varanda de minha casa, com os sentidos afiados e a atenção redobrada, que garimpo alguma coisa para os causos que reconto, principalmente os folclóricos. Histórias que ao longo dos anos até já modificaram minha crença, pois não acreditar no que aquela turma conta é não levar a sério a credibilidade de mais da metade dos meus conterrâneos. Pois bem, naquele dia um fato não comum tirou minha atenção daquele alarido de sempre, pois um grupo de pessoas conhecidas se juntou defronte do portão da garagem da minha casa ao redor de um amigo meu, que sempre se dizia cabra macho e corajoso em todos os sentidos. Este sujeito até então destemido, reside na cidade Betim - MG, mas possui um sítio com uma casa de campo numa das áreas rurais de minha terra. Disse até então destemido, porque naquele dia ele chegou meio fora de hora no centro daquele furacão de risos e deboches, correndo e muito assustado. E grande parte daqueles madrugadores da boca da ponte se juntaram ao redor dele, querendo saber o motivo de tanta correria. Também desci as escadas apressado e fui recebê-lo pensando até no pior, mas fui logo por ele informado de que estava tudo bem. Para descansar, sentou-se num pedaço de angico, que às vezes serve de banco e que sempre fica do lado de uma “Venda” que ainda estava fechada. Após um trago no cigarro nos disse, com ajuda de muitos gestos e com as mãos trêmulas, que havia saído cedo de casa para buscar seu pedreiro, o “biro-biro”. No meio do caminho seu carro apresentou defeito. Engasgou, falhou, tossiu e parou de uma vez. Ele tentou, tentou e nada conseguindo, resolveu deixar o carro lá, para pedir ajuda. Como a névoa ainda cobria boa parte da estrada, saiu caminhando rumo à rua. Tudo estava enfumaçado e não se encontrava com nenhuma viva alma, afinal de contas era mais ou menos seis horas da manhã, madrugada para a maioria. Foi quando avistou uma mulher e um rapaz com duas madeiras e um prego nas mãos, de costas, curvados, cavando o chão. Deu graças a Deus, cumprimentou os dois e pediu ajuda. O casal que estava vestido de branco, continuou de cócoras, cavando sem parar. Após alguns instantes de silêncio, a mulher morena sem se levantar e sem olhar, respondeu que eles não podiam ajudar ninguém, pois o tempo deles estava acabando e eles precisavam voltar. Estavam ali, naquela hora, apenas para consertar um erro, ou seja, mudar uma cruz que tinha sido plantada fora do lugar. Engolindo seco e com os cabelos querendo fugir dos braços, o meu amigo ainda nos contou, que ao perceber que as ferramentas que eles estavam usando pareciam ossos e crânios humanos, “pernas p’ra quem tem”, motivos pelos quais havia chegado ali, aquela hora, cansado de tanto correr e que tudo que ele precisava naquele momento era de um banheiro, um chuveiro e uma muda de roupa emprestada, pois pressentia que o pior tinha acontecido. O Miniatura, pescador e o mais experiente repórter da rádio peão local, que escutava tudo com atenção, agachado e encolhido no canto do meio-fio, levantou de uma vez e jurou: - “Cruz credo, Virgem Maria, é ela, faz mais ou menos sete meses que ela faleceu naquela estrada, indo para o Tabuleiro. Ela e o filho dela que também faleceu há sete dias... Virgem Maria, cruz credo" ! Juntou os apetrechos que já estavam prontos para uma pescaria no Poço do Limão e voltou p'ra casa. O “biro-biro”, cheio de coragem e de rezas, que havia sido contratado como pedreiro, virou mecânico e com ajuda de seus serventes, trouxe o carro do Carlão. Durante vários dias não houve outro assunto no meio daquela turma, mas ninguém tinha coragem de afirmar, com absoluta certeza, se a cruz tinha sido mesmo mudada de lugar. Já faz um bom tempo que meu amigo não vem ao seu sítio, ele me disse, por telefone, que está meio apertado, trabalhando muito e quase não está tendo tempo de sair. Pois é, se não fosse as setenta testemunhas presentes ao fato, eu não teria nem coragem de recontar esta história... Eles iam falar que eu estava mentindo, principalmente o meu amigo Nivaldo lá da UFMG.
( w.catizany)