segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

E NÃO É

Velho Donato

Era ali, fora do centro da cidade, mas não tão longe que a gente não pudesse ir caminhando tranquilamente quase todos os dias ao cair do sol. Nunca fui a um paraíso, mas aquele lugar era quase igual. Um pedaço do céu de frente para o poço da canoa e para minha escola, na divisa dos terrenos da Fazenda do Espedito com o Sítio dos “Pindiu”, bem debaixo de uma frondosa gameleira. Do lado de cima, a estrada e uma porteira; do lado de baixo, um gramado cercado de alecrim e um tronco antigo de amoreira, caído num barranco cheio de areia branca e que servia de assento para os pescadores. Um pesqueiro ideal para dar “banho nas minhocas” importadas do quintal do Serrador e esquecer daquelas coisas ruins da vida, que amolam a gente na infância. Com minha varinha de bambuzinho secada na chapa do fogão de lenha lá de casa, linha de plástico número dez e anzol “olho de mosquito”, comprados na venda do “Sô” João , era “tiro e queda”: lambari, timburé, cará e piauzinho, todo instante; um ceveiro de tanta fartura que se a gente bobeasse, os peixes pulavam do lado de fora e levavam o “cuitezinho” de iscas. A fieira era de arame e a quantidade de peixe, avaliada por metro. E para ser bom pescador na minha terra, tinha que pescar no mínimo sete metros de peixes por semana, medidos na fita métrica da Didi ou da dona Clotildes, costureiras que moravam perto da minha casa, do lado direito de quem descia a antiga rua Direita. Isto já descontada a meia dúzia de Cará que a gente, religiosamente tinha de jogar para o Bali, um cachorro pintado metido a besta, que ficava deitado na porteira do curral da casa do Damazinho, na beira da estrada, espreitando quem passava de volta. Era um trato, sem documento, que eu tinha feito com a “fera” e garantia de uma volta tranqüila por aquele caminho. Um dia, como todos os outros, uma coisa foi diferente - quase sujei a calça. E olha que se isto tivesse acontecido, não era de areia não e seria uma vergonha voltar p’ra casa todo... Isto aconteceu quando fisguei um timburé bem graúdo e virei para espetá-lo na fieira, uma cobra jaracussu campeiro de papo amarelo, de mais ou menos um metro e setenta, e de língua p’ra fora da boca estava de bote armado querendo negociar os outros peixes comigo. Tomei o maior prejuízo, pois quase sem pernas p’ra correr, deixei tudo para traz e foi a primeira vez que entrei naquela casinha plantada entre as bananeiras, as canas, os urucuns e as laranjeiras, numa pequena chácara do lado de cima da estrada, no sentido da jaguara e do Jacaré. Era mais do que necessário tomar uma água fresca, me refazer do susto e “sem querer querendo” aceitar a cortesia de um cafezinho de garapa. Foi assim que fiquei amigo do Velho Donato, um tipo impar, cabelos brancos em desalinho, mãos de tirar leite, voz macia e baixa, que além de vaqueiro e tomar uma pinguinha sempre, gostava de ajudar fazer o Judas todo sábado de aleluia e participar da farra que a rapaziada fazia a noite inteira pelas ruas da cidade, malhando o traidor de Cristo encima de um cavalo. Fiquei amigo também da “Satelina”, esposa do velho Donato e tal foi a empatia, que trocamos causos e risadas e acabei ficando para o jantar. Era um casal sem filhos, mas de uma simpatia inigualável e não demorou muito fiquei conhecendo o resto de sua família: uma sanfoninha surrada e já meio furada pelas traças, seu cachorro “Pitoco”, suas galinhas de pescoço pelado, suas angolas de ovos azuis e o “Compadre”, seu cavalo de estimação. Minha satisfação foi tão grande que de imediato adotei os dois como meus avós e os convidei para almoçar na minha casa no domingo seguinte, mesmo sem prevenir minha mãe. Mas, jovem é jovem e aquela turma não era brincadeira. Onde estava o Brocha, o Mazinho, o Saruê, o Dão, o Preto, o Viana, o César e outros ( eu, etc ), por perto estava também a sacanagem. Na Semana Santa, quando terminávamos de fazer o boneco objeto da farra, recheado de amendoim, balas, bombons, traques e bombas, era momento de fazer as “quadrinhas”, escolher as cantorias e arranjar um nome para o malvado. E era aí, que vinha a sacanagem: tínhamos que arranjar um cavalo para o judas.“Tacavam” cachaça no “Vô Donato” e sem que ele desse conta, o cavalo escolhido, era o “Compadre”. Quando o dia já estava claro e o sujeito desta farra já havia sido deixado em sua chácara no adro da Igreja, toda ornamentada com os vasos de flores da Dona Nenzinha, retirados da casa dela pelos fundos e de jangada, o velho Donato, refeito do porre e tomando conhecimento da traição, riscava sua faca pelas pedras da escada da Igreja, mas dois, três dias depois, tudo voltava ao normal. Após a missa das onze, o inventário do judas era lido, os seus pertences repartidos e as bombas e traques começavam a pipocar e fazer a alegria da meninada. Os preparativos para a próxima farra, começavam naquela semana mesmo, e foi assim por várias aleluias. Na ultima brincadeira nossa, resolvemos fazer um compromisso: iríamos escolher outro cavalo e aposentar o “Compadre”. O velho Donato ficou muito alegre, animado, mas por precaução levou seu animal p’ra longe, um pasto bem distante, lá na fazenda do “Sô” Nezito. Mas Jovem é jovem, já disse: o Silvério descobriu onde estava o “Compadre”. Pois é, o “Sô” Benedito, como se tivesse fazendo um favor para o Quim, trouxe da cidade de Morro do Pilar a tinta que era para a turma e o cavalo escolhido que era todo branco, ficou preto com uma estrela na testa e, naquele sábado do final dos anos sessenta, carregou o Judas na sela com o Velho Donato na garupa, segurando o boneco, rua abaixo, rua acima. No domingo, depois da missa e da farra, o Velho agradeceu a todos e saiu feliz, pensando: - “Desta vez o “Compadre” ficou de fora, “ tá longe”... Tomou umas e outras na venda do Zé Camilo, e no final da tarde quando chegava em casa, naquele paraíso que já descrevi, trocando os passos, viu aquele cavalo preto de estrela na testa, pastando na beira do rio, olhou o animal, riu de satisfação e depois de mais uma vez ser repreendido pela Satelina por ter abusado da “malvada”, pegou sua sanfoninha e foi sentar perto da janela. A sanfona e sua voz estavam tão desafinadas que choveu forte na mesma hora, um verdadeiro temporal. Com a chuva, o cavalo foi descolorindo, reencarnando a identidade original e se transformou novamente no “Compadre”. O velho Donato que tinha a voz macia e baixa, deu um grito de raiva tão alto, que quem estava na cidade, há quase dois quilômetros de distância, tomou o maior susto. O “Vô”, pegou seu facão afiado, foi para a estrada, despejando sua raiva no que encontrava pela frente. Havia sido enganado feio como das outras vezes e o resultado de sua ira foi um buraco profundo no tronco frondoso daquela gameleira branca, teto do meu pesqueiro, feito pela ponta de seu facão afiado. Passou a noite ali, praguejando e furando o tronco da árvore. Mas no outro dia, era outro dia. Um enxame de abelhas vindas dos lados da Barra, achou aquele lugar ideal e tomou posse daquela morada. Os anos passaram e o “Compadre”, coitado, já velho e aposentado, foi levado por um enchente grande do Rio Santo Antônio. A “Vó”, também foi chamada por Deus e em seguida, o “Vô” Donato também se foi, chamado pela Satelina, e tragado tragicamente pelas labaredas daquele incêndio. A casinha só ficou na imaginação, mas as abelhas, continuaram e parece que já estão na vigésima sétima geração. E hoje, toda vez que alguém ultrapassa os limites daquela cerca de arame farpado, elas se armam enfurecidas e declaram guerra a quem quer que seja. Dizem que recebem ordem do velho Donato, que lá de cima, ainda tenta proteger a sombra do “Compadre”, que às vezes nas noites de lua pasta tranquilamente naquele paraíso... ( w.catizany )