sexta-feira, 1 de agosto de 2008

A Mulinha e os Meninos

Era uma mulinha bem cuidada, bonita e mansa. Seu proprietário, além de sitiante e comerciante, era o responsável pelas notícias na cidade, ou seja, transportava os malotes dos correios para serem distribuídos a seus destinatários mundo afora. Também fazia o inverso e era a alegria, dia sim e dia não, das namoradas e esposas temporariamente viúvas e das famílias saudosas, que tinham filhos e outros parentes trabalhando ou estudando em outras localidades. Cumpria este ritual há vários anos, em sacos de lona no lombo de burros e mulas, por isto carecia sempre de estar renovando sua “frota” de animais. E naquela época entre os muares que possuía, ele tinha duas mulas - a Moeda e a Conquista, que vieram parar nestas bandas através de barganhas feitas com ciganos vendedores de tacho de cobre que arrancharam nos gramados da praia, com suas mulheres misteriosas e desejadas, de vestidos cumpridos, braços de pulseiras e dentes de ouro, e que também como segunda opção, faziam negócios de burros, cavalos e mulas. A Moeda era uma mula robusta, pêlo de rato, mais séria, p’ra não dizer mais brava, ao contrário da outra, a Conquista, que não tinha um naipe tão nobre nem tão pouco postura de classe, mas era mais simpática e chamava a atenção das pessoas pelo seu tamanho nanico e pelo seu trote maneiro. Cheia de simpatia, principalmente quando estava selada, era a montaria preferida daqueles que às vezes tinham a oportunidade e o prazer de tê-la por empréstimo para alguma pequena viagem ou mesmo para uma voltinha de turismo. De idade indefinida, mas ainda de menor, era altiva, olhos grandes e vivos, patas bem cuidadas e sempre calçadas com ferraduras “de salto”. Era tão mansa que levava qualquer um a acreditar, que ela entendia e se comunicava com seu condutor, mesmo que fosse uma criança. Pois bem, voltando de férias à minha cidade depois de um semestre de livros nas mãos, levei comigo um de meus primos; um adolescentes meio gorducho que morria de medo de assombrações, mas “gente fina” e cheio de chamegos pela vida da roça. E logo que chegou, virou rapidamente ambientalista, protetor de animais, enfermeiro de cachorros e galinhas, caçador de vagalumes e pirilampos, enfim se “enturmou” com meus dois outros irmãos mais ou menos da mesma idade. Para completar, resolveu aprender a ser peão e para satisfazer o desejo do gorducho sem maiores conseqüências, o jeito foi escolher uma montaria mansa, dócil e de estatura pequena: a mulinha Conquista. E “Seu”Bené” cedeu a mulinha com a maior satisfação, afinal era amigo da família e compadre dos meus pais... Acredita ? foi amor à primeira vista e naquele mês de julho era rotina ver os três adolescentes ( meu primo e meus dois irmãos) e a mulinha, rua abaixo, rua acima, o dia inteiro. Em troca, tratavam a pequena como uma rainha, era folha de alface no almoço, capim gordura no café e fubá molhado no jantar. De sobremesa, sal refinado e até água mineral na cuia a vontade. A danada já estava ficando sem vergonha, encostando em qualquer lugar... Mas como tudo que é bom dura pouco, o mês de julho passou rápido e retornamos, meu primo e eu, à Capital, pois era mais um período de aulas, trabalhos, provas, etc. O duro foi suportar o gorducho “choraminguando” de saudade, contando o tempo para as próximas férias e falando na Conquista o tempo todo. Arranjou até uma folhinha mariana para riscar os dias; assim dezembro não demorou tanto e chegaram outras férias, a de final de ano. A noticia da nossa vinda já tinha corrido no lugarejo. E o dono da Conquista, que além de tudo era nosso vizinho de frente, viu entre a bagagem do meu primo, uma manta nova de encerado xadrez, um cabresto colorido, uma rédea novinha em folha e um pelego laranjado, não pensou duas vezes: na manhazinha do outro dia mandou buscar a mulinha que estava no pasto do Tabuleiro e a entregou de bandeja ao trio de guris. Foi um reencontro de amor à segunda vista e a cena se repetiu: os três meninos e a mulinha, rua abaixo, rua acima e desta vez, também foram incluídas voltinhas na praia, com direito a fotografia e tudo mais que a parceira merecia. Sete dias já tinham passados daquelas férias e, como em qualquer outra história, tinha que aparecer um trapalhão, um intruso. Surgiu um tremendo gozador, que era um observador de carteirinha, criterioso e “memória de elefante” no que via. Então para ele, não foi difícil deduzir que as três últimas voltas diárias do quarteto na praia, sempre demoravam bem mais do que as outras. Então ele resolveu planejar um flagrante e tirar suas dúvidas a limpo. No dia seguinte, depois de preparar um esconderijo atrás de uma piteira próxima de uma clareira, nosso espião ficou de “butuca” ligada. Por volta das quatro horas da tarde o quarteto levantou poeira nos trilhos por entre as vassouras brancas. Um dos meus irmãos, cúmplice do combinado e já meio sem jeito, resolveu fazer uma pescaria improvisada no lajeado; o outro, que sempre ficava na rebarba e varrendo os lados com os olhos, inventou de fazer castelo de areia na grama da praia; e o meu primo, meio sem graça, mas cheio de boas intenções, resolveu sair da estrada com a conquista e encostar num cupim na sombra de uma gameleira para “descansar”. E não é que o cara se soltou em momento de delírio e se entornou de admiração pela Conquista... Sonhou tão alto, passando as mãos pela crina da companheira que esqueceu do mundo e de quem estava por perto... “Gosto tanto de você, meu animalzinho querido, que não “te” dou uma saía de godê porque você não consegue usá-la e também já não é moda; não “te” dou um par de sandálias franciscanas porque seus pés são redondos e o modelo não ficaria bem em você; não “te” dou um par de brincos porque suas orelhas para cima não precisam de nenhum adorno, parecem as mais belas línguas de sogra...Com você do meu lado não ia ter medo nem receio de nada, nem dos assombrações. Viajava tão alto em seu romantismo que nem percebeu uma cobra dentro do cupim “endurecendo” toda e ficar pronta para o bote; sorte é que ele estava do outro lado do buraco. Pois é, o cara já estava quase em êxtase quando uma voz misteriosa, do nosso vigia, saiu lá de dentro do mato, de trás da piteira : - “Seu sem vergonha, seu safado, pára por aí; ela é de menor, tudo isto ela dispensa, ela agradece... A única coisa que ela precisa é de um saco de milho e um saco de sal por mês. Você terá que dar e daqui p’ra frente sou eu que vou cobrar... Eu sou a alma do cigano ex-dono desta criatura...” O gorducho já quase sujando a calça, amarelou de vez e com as pernas ainda trêmulas, montou na Conquista até do lado errado, e “zarpou” sem completar sua intenção... Até a cobra que estava no cupim, já em estado amolecido, entortou de lado e se acomodou. Meus irmãos que escutaram tudo de longe e também morriam de medo de alma de outro mundo, deram volta pelo outro lado e chegaram quase sem fala na rua. “Desarrearam” a cobiçada, forneceram o banquete de rotina e a devolveram ao seu dono... E não é, que naquele dia foi a última vez que vi aquele quarteto, rua abaixo, rua acima. O mais interessante, é que na pedreira da casa do nosso vizinho, dono da mulinha, começou aparecer como se fosse um milagre, um saco de milho e um saco de sal, todo mês. E esta aposentadoria durou algum tempo e só foi cortada quando a Conquista foi barganhada com outros ciganos que passaram pela cidade, com suas mulheres misteriosas e desejadas, de vestidos cumpridos, braços de pulseiras e dentes de ouro, e que também faziam negócios de burros, cavalos e mulas. Por questões de compromisso preservamos o sigilo da identidade daquele assombração, que até hoje continua sendo um gozador de carteirinha e a última que ele nos disse, é que apesar de tudo, ainda existe uma lembrança dos fatos guardada a sete chaves: um retrato da mulinha acompanha um deles. E em época de férias, quando aqueles três, hoje marmanjões, se encontram para falarem do passado e tomarem umas e outras, lá pelas tantas, passa cuidadosamente de mão em mão e sempre vai para uma carteira diferente daquela que saiu... Parece que ficou muita saudade daqueles tempos... É como diz o pessoal do ramo: o primeiro amor nunca se esquece !!!!