domingo, 1 de junho de 2008

O Troco do Bené

Conversa de contador de causos é assim mesmo, todo mundo acha que tem que ter mentira no meio, mas nem sempre falta a verdade. O certo é que este pessoal contador de histórias tem uma habilidade danada de misturar palavras e entrelaçar a realidade com imaginário, e as pessoas que escutam ou lêem tais proseados, passam a jurar de pés juntos, em nome de São Benedito, Santo Onofre, São Sebastião, enfim de todos os Santos, que tudo aconteceu mesmo. Mas há momentos que tudo é verdade, tal a riqueza de detalhes da narrativa e a citação de provas passíveis de serem verificadas em qualquer momento. Assim, o folclore da cidade vai enriquecendo, misturando o sacro e o profano, os peixes falantes, as cobras grandes e de pernas, as pescarias absurdas, o trágico e o cômico, as assombrações, etc, etc e etc. Pois bem, na primeira metade da década de setenta, Santo Antônio se encontrava na transição de tempos antigos com a era da televisão colorida, do transporte coletivo, da luz elétrica e de outras modernidades. Mas, ainda era comum as lamparinas, as lanternas de pilha, os namoricos escondidos, visitar os amigos aos domingos, a troca de presentes entre vizinhos, os passeios com a família nos fins de tardes, as reuniões ao redor de um foguinho, jogar conversa fora na “boca” da ponte e no adro da Igreja. Com certeza, as crianças ainda eram realmente crianças, ainda se conseguia sonhar, as brincadeiras eram só brincadeiras e até as amizades pareciam mais sólidas e mais reais. A relação entre pessoas eram garantidas por palavras – amigo era amigo, irmão era irmão, compadre era compadre, namorado era namorado, enfim coisas dos tempos antigos. E um destes grandes amigos de todos se destacava na cidade, porque além de prestativo, paciente e companheiro, brincava muito. Seu nome, Benedito Gonçalves de Paula. Sua alcunha, Benedito “chininho”. Era comerciante, fazendeiro, proprietário da Fazenda da Prata na divisa com Brejaúba e nas horas de folga “um tremendo gozador”. E além de tudo isso foi Vereador nesta cidade. Residiu numa casa que existia na entrada da atual Rua Bento Ribeiro e mais tarde, na casa onde morou o Joaquim do Alípio. Já com a família quase criada e os filhos necessitando de trabalho e estudo, o Benedito resolveu mudar-se para Contagem - MG, deixando seus amigos em Santo Antônio chateados e carentes de “graça”. Para compensar, ele prometeu voltar sempre nos finais de mês para colocar o papo em dia e rever os parceiros. No início tudo corria conforme combinado, mas com o correr do tempo, seus retornos foram diminuindo, até que um dia, o Benedito sumiu por quase sete meses, sem nenhuma notícia. Num sábado de julho sem que ninguém identificasse a fonte, chegou a notícia ruim, da morte do amigo de todos. Foi um susto, uma tristeza danada e uma lamentação geral. O Gentil Rufino, amigo “do peito” e companheiro de truco, se encarregou de repassar a má notícia aos outros e de marcar a missa por intenção da alma do falecido. No dia seguinte era domingo e a data veio a calhar, todos vestiram a domingueira e foram para a Igreja reverenciar a memória do grande amigo perdido... Passaram alguns dias e a cidade já estava acostumando com a falta do “Bené” e suas brincadeiras, quando ao cair da noite de uma sexta-feira, alguns meninos brincavam do outro lado da ponte e avistaram uma figura das mais esquisitas abrir a porteira e se dirigir rumo ao centro da cidade. Era um homem magro, alto, enfiado numa capa de chuva de cor escura, com um chapéu preto enterrado na cabeça e montado num cavalo pangaré. A “alma perdida” passou por algumas pessoas que estavam na ponte de cabeça baixa e em silêncio, entrou na antiga rua Direita em trote manso. Foi menino p’ra todo lado, alguns perderam o boné, outros o chinelo e muitos abriram o “bué”. Mas, o “cavaleiro do além” indiferente ao pânico causado, desceu a rua sob os olhares espantados daqueles que cruzaram o seu caminho. Foi até ao cemitério fez o sinal da cruz, abriu o portão, entrou, deu um giro de cento e oitenta graus e voltou no rastro do cavalo, causando uma histeria geral naqueles que ainda se atreviam a espiá-lo pelas frestas das janelas. O Bar do Alfredinho, já citado em outros causos, ficou cheio de medrosos e de comentários assustadores. Na loja do Gentil Rufino já tinha gente saltando o balcão e se enrolando nos cortes de pano das prateleiras. E foi exatamente no meio da rua entre os estabelecimentos citados e a platéia descrita, que o “fantasma” parou. Desceu do cavalo, tirou a capa de chuva, desenterrou o chapéu preto da cabeça e mais uma vez foi “marmanjo” p’ra todo o lado; gente caindo da escada, pulando janela, entrando em casa errada, se benzendo com cigarro, rezando p'ra retrato na parede, engasgando com pinga, engolindo grito de socorro, numa confusão geral. E não é que o “assombração” era exatamente o gozador, o danado do Benedito “chininho” em pessoa, que ao chegar à Fazenda da Prata sem passar por Santo Antônio, ficou sabendo da notícia de sua falsa morte, da missa celebrada em intenção de sua alma e resolveu tirar um “sarro” de seus amigos, naquela noite. Alguns anos mais tarde, o “Bené”faleceu de repente e de verdade, bem próximo do mesmo lugar onde havia descido do cavalo pangaré, tirado a capa de chuva, desenterrado o chapéu preto da cabeça e assustado a metade da cidade...