segunda-feira, 5 de maio de 2008

A Vaca Especial

Santo Antônio do Rio Abaixo sempre foi uma cidade quase mística, onde a crença e a religiosidade às vezes se misturam com o profano. Desde muito, é comum misturarem histórias verdadeiras com causos de assombração, de mula sem cabeça, de almas penadas, de vozes do além, etc. E este é mais um causo que ouvi numa das rodas de caipirinha no Balneário Benedito Martins. Na metade da década de sessenta, as casas da cidade eram de apenas um andar, rentes à rua, de janelas baixas e quase sempre a porta principal ficava aberta. A “boca” da ponte sobre o rio e o adro da Igreja Matriz eram os locais preferidos da meninada e da juventude de minha geração. Apenas os bailes com disco de vinil, organizados em datas importantes no Salão Paroquial e as festinhas cívicas do Grupo Escolar, alteravam a rotina da cidade. Do outro lado do rio e da ponte, existia uma área gramada que além de servir de altar para as Missas Campais celebradas de vez em quando pelos Padres, Argel e José Cirilo, era palco de memoráveis “partidas de futebol” entre os times de meninos da “rua de baixo” contra o time de meninos da “rua de cima”. Do lado direito sentido sul desta área, existia um poste de pau roliço, brauna, que além de servir para amarrar o cavalo do Judas nas farras do sábado de aleluia, se constituía no matadouro oficial do município. Ali, o senhor “Zinho”, profissional competente na arte de calçar os animais com ferraduras, também sacrificava bovinos e suínos, que depois de desossados e classificados por tipo de carne, eram vendidos no outro dia, no açougue do senhor “Darcy”. E foi numa tarde quase noite de uma sexta-feira sem maiores novidades, que tudo aconteceu. Dizem que foi a vez da caça. Uma vaca sentenciada à morte e já na câmara de execução, rebelou-se. Rebentou o laço de couro e saiu louca pela rua principal, fazendo as pessoas fecharem apressadamente portas, janelas e portões, enfiarem debaixo de cercas de arame farpado, subirem sem permissão em muros e árvores, num alvoroço total. Atrás do animal, em cavalos calorentos, corriam o “Dezinho”, o “Ditão”, o “Zinho”, o “Ary ventania” e outros voluntários. A vaca irada, correndo de um lado para outro, achou a porta da casa do “Generoso” e dona “Enide”, aberta. Invadiu a sala, errou a saída para os fundos e entrou no quarto da frente. E como havia um desnível entre os cômodos, o animal caiu sobre uma cama, estreando um colchão de molas, em posição como se estivesse de joelhos... Ninguém soube se foi por cansaço ou por respeito, mas a vaca aquietou-se como se realmente estivesse numa Igreja, em frente a um confessionário. O pessoal da casa, que estava na cozinha, cumprindo o ritual diário das seis da tarde, sintonizados na “Ave Maria” da Rádio Aparecida, tomou o maior susto e saiu em desespero, esquecendo até mesmo de desligar o velho Rádio Zilomag. O Hélio, um dos filhos do Generoso, foi parar que nem rapadura no jirau, o senhor Lincoln, tio do Hélio, que nem biscoito se enfiou pelo forno de lenha, o “saruê” passou pela janela como se fosse um gato preto e os outros escafederam, cada um para um lado. Teve gente que virou chinelo debaixo da mesa, outros rolaram que nem pedra para a beira do rio, enfim se via gente que nem macaco encima do pé de Ingá. Mas, após o primeiro susto, os vaqueiros improvisados narraram o ocorrido para os proprietários da casa, que conseguiram se trancar no banheiro, e pediram licença para tentarem tirar o animal antes de escurecer por completo... O animal permanecia imóvel sobre a cama como se tivesse realmente de joelhos. Puxaram daqui, puxaram dali e a vaca permanecia imóvel. Lá dentro, de dentro do rádio, o padre dizia - Pai nosso que estais no Céu, santificado... E de repente o absurdo: no quarto que já estava quase sem luz, onde não havia ninguém além da vaca, uma voz, que mais parecia um mugido ecoou - “Enquanto não terminar a “oração” eu não saio daqui... Pânico... Silêncio total, pois todos escutaram a misteriosa voz, sem entenderem nada. E sem que ninguém entendesse nada mesmo, após o “Pai e Nosso”, a vaca saiu calmamente rumo ao quintal da casa. O senhor “Zinho”, calado e meio assustado, para evitar outros transtornos mais sérios, e até mesmo por estarem bem próximos do açougue, sacrificou-a ali mesmo, no fundo da casa do “Generoso”. A notícia do fato correu de boca em boca e rapidamente toda cidade tinha conhecimento da história...Curioso, é que no outro dia, ninguém de Santo Antônio quis comprar e nem mesmo comer a carne da vaca e o senhor “Darcy”, para não tomar um baita prejuízo, teve que mandar toda a carne para açougues das cidades vizinhas. Bom, se a carne foi toda vendida e se teve alguma conseqüência mais séria, até hoje não ficamos sabendo com certeza, pois depois desse dia, o açougueiro se aposentou e não quis tocar mais nesse assunto...