Eram dias de quaresma, portanto tempo de penitencia. Mas o padre daquela comunidade que era um comilão como os outros já não agüentava mais a rotina das refeições que eram ofertadas pelas suas ovelhas. Sem carne vermelha, era lambari, timburé e curimatã sempre, e mesmo assim pescados no rio local. Bacalhau ? Nem pensar, era muito caro e muito raro. A rotina já somava trinta e sete dias, desde aquela quarta-feira de cinzas. O reverendo às vezes delirava, pois era um carnívoro de mão cheia, e em suas vertigens se via numa mesa com costelinha de porco, franguinho com quiabo e bife acebolado. Que tortura ! Mas era quaresma, dias de penitência, tempo de jejum. Numa manhã de sábado sem noção do tempo, o Padre Joãozinho, acordou em júbilo com os gritos de um pessoal que descia as ladeiras da casa de dona Zinha, vizinha da propriedade paroquial, numa gritaria danada: - Pega ! Pega ! Pega ! Segura ! Segura ! Segura firme e não deixe passar por entre as cercas ... Mais uma vez delirando e esfregando as mãos de contentamento, o vigário balbuciou baixinho: - hoje é dia de dona Zinha trazer a “bóia” ! E pelo jeito é um franguinho ! Ledo engano. Era uma abóbora moranga que na hora de ser colhida havia rolado morro abaixo e que mais tarde ia fazer parte do almoço do clérigo. Os dias foram passando e o Joãozinho de Deus estava que nem onça nos pampas em busca de alimento, mas estava chegando o final das penitencias. O calendário do mês de março na sacristia já estava quase todo riscado e era quinta-feira santa. Havia muita movimentação das beatas na Igreja para fechar a Semana Santa com chave de ouro, faltavam apenas dois dias, e dona Zefa, a mais idosa da paróquia, convidou o Padre e a comissão organizadora dos eventos para uma ceia na casa dela após a celebração do “Lava Pés”. Após o convite, Padre Joãozinho era a ansiedade em pessoa e esperava aquele momento mais do que os outros e cheio de gula. É que dona Zefa tinha fama de ótima cozinheira e isto era sinônimo de um banquete para satisfazer qualquer Padre, mesmo sem carne vermelha. E realmente foi mesmo. Na mesa enfeitada para noite de gala, havia palmito “in natura”, tomate maçã, purê de batata inglesa, arroz branco com cenoura, alface recortado vindo direto da estufa de hidroponia, piau vermelho grelhado, macarronada com queijo ralado e ovo frito, etc. Isto é, além do doce de leite, de mamão, de pêssego, do pudim, da gelatina e dos cremes diversos. O inconveniente foi apenas o ovo frito, mas o sacerdote se fartou como nunca, tirou a “barriga da miséria”. Não sei se deliciava mais com a comida da mesa ou com as pernas da Zefinha, filha da dona Zefa, que estavam embrulhadas em pouco pano, isto é, numa saia curtinha da cor vermelha , expostas sem pudor do lado esquerdo do religioso. Outros convidados também estavam na mesa, mas o centro das atenções era o Padre, além das belas pernas da Zefinha que decoravam e bem, aquele ambiente de comilança. Terminada a ceia e a rasgação de seda dos convidados elogiando a cozinheira , dona Zefa que era sempre atenta e detalhista, percebeu que o convidado ilustre havia deixado no prato o ovo frito e quis logo se explicar porque não havia servido o ovo cozido, tradição da macarronada... Desculpe-me, Padre Joãozinho, esqueci da gastrite do senhor e por um lapso servi ao invés de cozido, o ovo frito. Mas, é que mandei comprar na venda do compadre Zico uns ovos para o jantar e como sou prevenida quebrei alguns antes e eles estavam “chocos”. Então não quis correr o risco com restante e resolvi fritá-los, pois assim ficava mais fácil de verificar se estavam estragados. E mais uma vez dirigindo-se ao Vigário e referindo-se aos ovos, disse na maior naturalidade: “Já pensou se eu “cuzinho” com o pinto dentro” ? Seria um sacrilégio ! ... E não é ? (w.catizany)
