domingo, 1 de março de 2009

E NÃO É

O ASSOMBRAÇÃO DA GAMELEIRA

Isto aconteceu num final de semana do mês de julho de alguns anos atrás, quando nem luz elétrica ainda havia na “terrinha”. Em frente a casa do Gentil, existia um casarão de propriedade do Avelino e que posteriormente foi adquirida pelo Alfredinho, que montou ali uma pensão para viajantes e um barzinho aconchegante, numa construção em anexo. Este barzinho transformou-se no ponto de encontro das pessoas, por um tempo. Todas as noites, além dos peixinhos fritos, da cachacinha pura e da cervejinha gelada em geladeira de querosene, sob a luz de um lampião Aladim jogava-se sinuca, truco e conversa fora. Entre tantos, havia dois fregueses assíduos do estabelecimento e parceiros inseparáveis nas partidas de truco - o Zezito e o Zabé. Enquanto estavam no bar, a alegria era total. Era truco p’ra cá, seis p’ra lá, tapa na mesa, mão naquilo e risos da platéia. O grande problema era na hora de ir embora, não podia passar das nove e pouco. Os atletas do baralho moravam um pouco fora da rua, numa área rural, e tinham que passar numa estradinha bem estreita, do outro lado do rio, onde existia uma frondosa gameleira na beira do barranco do lado esquerdo, sentido sul, rumo ao Jacaré. Todos os fregueses do Alfredinho e o resto da cidade, conheciam a história e tinham medo de passar debaixo daquela árvore depois das dez horas, por causa de uma assombração; inclusive o Zezito e o Zabé, que temiam encontrar com a danada. Diziam que uma mulher vestida de branco, de chapéu panamá enterrado na cabeça e sapato preto, rasgado, de dedos às vistas, realizava seu passeio noturno e ali descansava por alguns momentos, quase todas as noites, mas principalmente nas segundas, quartas e sextas. Entre nove e nove e meia da noite era o limite para quem quisesse passar por aquelas bandas sem nenhum transtorno. Por isso quando os ponteiros do relógio abriam os braços, marcando nove e quinze, eles largavam tudo e pernas para quem tem. Passavam pelo local com passos largos, conversando alto e sempre portando duas tacas de couro de vaca preta, trançadas em cruz pelo Ataíde. E mesmo assim passavam desconfiados, arrepiados e atentos, até porque um pouquinho à frente do lado direito, existia uma cruz de madeira fincada na beira da estrada e que marcava, como é costume no interior, o local onde alguém deveria ter falecido de repente. Parecia até enredo de novela, cada dia era acrescido na história, um novo episódio, um novo detalhe. Já havia gente séria que afirmava ter visto a mulher se banhando nas águas do rio Santo Antônio, “peladona”; outros diziam que ela era careca por isso usava chapéu e alguns juravam que ela era banguela e que suas unhas eram vermelhas. Até mesmo as folhas que caíam da árvore se transformavam, nas palavras dos medrosos, em pedras atiradas nas pessoas que passavam, pela dona de branco. Numa sexta-feira diferente, em que havia festa na rua, o Zezito e o Zabé distraíram-se no bar e esqueceram da hora. Todos presentes, perceberam, mas ninguém avisou e até atrasaram o relógio que ficava por cima da geladeira; afinal alguém aguardava aquela situação havia muito tempo. Já passava das onze da noite quando a dupla saiu, fora do prumo e de direção, medindo a largura da ponte e cheia de coragem, disposta a enfrentar tudo. A turma que sempre aprontava e conhecia bem o medo dos dois, também saiu de mansinho e desceu a rua Silvestre da Costa Lage, que antigamente chamava rua Direita. Subiu até o Adro da Igreja Matriz e se instalou debaixo do centenário pé de jenipapo que havia ali, para assistir a “peleja do sobrenatural”, pois fatalmente os dois iriam deparar com a assombração da gameleira. A visão da turma estava favorecida pela luz da lua que brilhava e iluminava todos os lugares, inclusive o outro lado do rio. Quando os dois chegaram perto da gameleira, o Zabé avistou a “branquela” e cheio de coragem, gritou " - Dona assombração eu quero passar, eu não mexo com a senhora e a senhora não mexe comigo". “Tá precisando de reza ? Eu rezo p’ra senhora”. Mas eu quero passar... E foi andando, andando e andando. Quando de repente a tal mulher, vestida de branco e de chapéu panamá enterrado na cabeça, saiu de trás do tronco da gameleira e pulou no meio da estrada... E o Zabé mais uma vez gritou - “cruz credo”, fora satanás, fora caramunhão e pula daqui, pula dali e saltou em falso fora do caminho, agarrando nos galhos de um Ingá para não cair dentro do rio. O Zezito que vinha um pouco atrás, lembrou da taca e cheio de ginga, também resmungou - “Virgemaria”, “fora cão doido”, “alma do outro mundo”... E puxou uma “tacada” na dona assombração, que dizem que tinha uma voz fininha... Mas ela soltou um “urro” tão grosso, que a rua inteira escutou aquele gemido, e o Zabé já refeito da perda de equilíbrio e vendo o parceiro em apuros, puxou mais uma lambada, mais outra e só se ouvia uma voz sofrida - “ai... ai... ai... ai...”, chega, chega covardes, “me acode”, “socorro gente”... E para surpresa de todos que mesmo de longe também estavam arrepiados e querendo correr, a assombração, tirando o vestido branco e o chapéu panamá, bradou para os quatro cantos, “páaara” Zezito, “páaaaaara” Zabé, sou eu, sou eu, o Juquinha, pára, não bata mais, pelo amor de Deus... Socorro... Socorro, gente... Socorro e sumiu no mato que nem assombração mesmo, pelas curvas da estrada. Por mais de dez dias ninguém viu o Juquinha na rua, exceto quando ele ia na farmácia do Guido, comprar algum analgésico ou alguma pomada para passar nas chagas adquiridas. E assim, mais um mistério de assombração foi desvendado e gravado nos arquivos do folclore de nossa terrinha... E não é ? ( w.catizany)