segunda-feira, 6 de outubro de 2008

AS MEIAS PALAVRAS DO TURCO


Aquela cidadezinha era um lugarejo de poucas casas na sua área urbana, talvez umas quatrocentas. E no Centro, as coisas parecem todas agarradinhas. A Igreja ficava perto da Prefeitura, que ficava próxima das Escolas, do Cartório, dos Correios, do Posto de Saúde, da Delegacia, etc. Ainda era uma cidade essencialmente do interior, onde as portas e janelas das casas ficavam abertas; não tinha fiscal nem sinal de trânsito, sentava-se na calçada para prosear e comprava-se na caderneta. Quase todos eram chamados por apelidos e não precisa de campainha nos portões. O principal meio de comunicação à distância era o grito e, telefone só fazia falta quando se ligava para fora da cidade. Ouvia-se não o sertanejo mas o caipira, escutava-se não o MP3, mas o radinho de pilha, bebia-se pinga no cuité e água da bica ainda com as mãos unidas. Muitas vezes na hora do aperto tirava-se a “água do joelho” ou “amarrava-se o gato” atrás de uma piteira ou de uma “moita”. Todo mundo conhecia todo mundo e sabia onde o outro morava, mas na maioria das vezes ninguém sabia nem o nome da sua rua e nem o número da sua casa. Fazia parte do dia-a-dia de seus moradores ou visitantes ´dormir com as galinhas” e “acordar bem depois do bicho preguiça” quando o sol já tinha andado quase duas léguas no céu, particularmente nos meses de férias, aos domingo e depois de uma festa importante em que se virava a madrugada de pé. E foi exatamente num destes domingos preguiçosos de julho, meia manhã de solzinho de inverno que meu irmão, aquele do Hotel Catizani, com seu velho jeito de caboclo que conhece todas as histórias do lugar e com seus passos na velocidade do tempo local me contou esta história. Naquela época na nossa cidade, além do machismo dos homens, uma outra característica comum, era quase todos serem compadres e ainda, conservavam o bom costume de nos finais de semana, uns visitarem os outros para colocarem o papo em dia e até mesmo para pedir conselhos num momento de tomada de decisão. Afinal, quando alguém escolhia outro para compadre, fazia um pacto de quase cumplicidade, que às vezes, era muito mais leal do aquele feito no Cartório ou na Igreja com suas mulheres. Isto era rotina. Pois bem, dois destes sujeitos, se encaixavam direitinho neste contexto: O Turco e o Bigode, dois compadres daqueles de “papo amarelo”. Certo dia, o Turco nas suas rotinas fisiológicas sentiu que a coisa não fluía bem. Usou o espelho, apalpou e teve a certeza que estava com um problema sério em suas hemorróidas. Suportou o sofrimento algum tempo, mas já não estava dando para segurar. Aconselhou com as pessoas mais velhas de sua família, fez uso de vapor de água quente, da “gosma” da babosa, de pomada vendida sem receita médica na farmácia local e outras infusões do folclore do curandeirismo. Mas nada. A coisa estava ficando feia e ele já não estava podendo nem trabalhar. Andar a cavalo, nem se fala! Depois de muita relutância, resolveu ir ao médico. Marcou uma consulta no Posto, mantendo o objeto de seu mal em sigilo e ficou aguardando. Três horas da tarde de uma sexta-feira, muito desconfiado, lá estava o Turco na frente do consultório e de pé ao lado de uma cadeira vazia na primeira fila, com sua fichinha na mão. Meio sem cor de tanta dor, meio sem saber o que fazer quando chegasse a hora de falar e muito “sem graça” frente às outras pessoas que também aguardavam atendimento, devidamente sentadas. Com grande esperança de encontrar uma solução para aliviar seu mal, ele ouviu seu nome ser chamado e pressentiu outro drama começar em sua vida. Entrou, fechou a porta, sentou-se de lado e começou a tremer. Era uma doutora que ia atendê-lo. Pois bem, a pedido e totalmente sem graça, contou a história de seu mal e foi orientado a se deitar numa maca e mostrar suas partes íntimas. Sentiu até que não devia ter nascido e após alguns instantes de exame e silêncio, ganhou uma caixinha com três unidades de medicamento e ouviu atentamente as instruções de como usar e a recomendação de voltar na próxima semana. Saiu de lá sem rumo e até meio torto, que nem conseguiu agradecer a recepcionista. Foi para casa contrariado e coisa que ele nunca havia feito depois de adulto, até dormiu naquela tarde para esquecer o ocorrido e não ter que dar outras explicações de sua consulta. Acordou com muita dor, mas com receio de manchar sua honra machista, resistia em usar o medicamento. Lembrou-se que seu Compadre Bigode havia passado pelo mesmo mal e resolveu então se aconselhar com o amigo, dono de um bar na cidade. Já era noite e a rua estava vazia, principalmente pelo chuvão danado que já vinha na serra, quando o Turco chegou desconfiado e foi recebido pelo Compadre Bigode, com alegria e muita estima no seu bar, pois sua esposa e seus filhos estavam viajando. Não havia um freguês se quer no estabelecimento, o tempo se fechou de vez e não demorou a descer um aguaceiro danado. Para ficarem mais a vontade e esconderem dos relâmpagos, o Bigode fechou as portas do bar e continuaram conversando, encostados no balcão, do lado de dentro. Falaram de bois, cavalos, negócios, religião, política e já quase faltando assunto, o Turco resolveu se abrir e contar seu drama “ Pois é, compadre, estou com um problema danado de hemorróidas. Nunca senti tanta dor e nem vergonha como a de hoje à tarde. E contou o ocorrido...Ela era muito resolvida, compadre. Começou até arrancar minha calça. Que vergonha, amigo! E eu estou num dilema danado agora, pois depois da consulta ela me entregou esta caixinha e disse que eu tenho que usar estes três e me passou umas instruções danada... Não enfio e nem deixo enfiar mesmo... De jeito nenhum, mas não deixo enfiar por dinheiro nenhum. Isto não é coisa de homem não, compadre ... Nestas alturas do papo, a chuva já tinha dado uma trégua e o Piscina, também compadre do Bigode, desceu o morro para comprar cigarro e bateu com a cara na porta, pois o bar estava fechado. Entretanto, notou que havia gente lá dentro conversando. Colou o ouvido na porta e a conversa chamou sua atenção e o assustou por demais. O Piscina , da cor de cera, fazendo o sinal da cruz, se afastou um instante e avistou o Matoso que voltava de um jogo de truco: - “Escuta aqui, escuta aqui, Matoso, se é isto mesmo o que estou ouvindo e pensando... E lá dentro do bar, alheio a qualquer coisa e inocentemente, o Turco continuava, já bravo: “mais, não enfio mesmo... E nem deixo enfiar, mesmo”... E o Bigode pegando a caixinha do medicamento: - Ora compadre, deixa de preconceito, eu já enfiei isto, não dói não, é só colocar com jeitinho... E o Matoso, mais assustado ainda, do lado de fora: “Nossa, Piscina, não estou acreditando”!!! Vamos cair fora. O Piscina, pôs as mãos para cima chamando por todos os santos e com o Matoso saíram pasmados do local, quase sem pernas. Subiram as escadas do Adro e não arrombaram a porta da Igreja para rezar, porque era um sacrilégio fazer isto tarde da noite. Mas lá ficaram por muito tempo sentados no último degrau, sem acreditar no que ouviram... E sem saber de nada do que havia ocorrido lá fora, sem avaliar a confusão que eles haviam provocado, o Bigode acabou convencendo o compadre Turco a usar os três supositórios de penicilina receitados pela médica. Enfim, depois de convencido, de virar o último gole de refrigerante e aproveitando a aragem do tempo, o Turco despediu e foi embora, já aliviado. O Piscina e o Matoso, naquela noite não dormiram. O assunto vazou e durante vários dias não houve outro comentário na cidade. Dizem que até hoje eles ainda estão gastando muita saliva para explicar melhor aquela história, daquela noite. E é como aquele meu irmão sempre diz, entre o céu e a terra, principalmente naquela cidade, tem coisas que nós mesmo custamos a acreditar...