Era uma noite em que ventava e chovia, depois de um dia em que ninguém conseguiu colocar os pés do lado de fora de casa e mesmo com a intensidade da chuva, da janela podia-se ver que a rua continuava cheia de água, vazia de gente e triste. Dezembro nunca havia sido um mês de muito sol na cidade, e naquele, sem nenhuma alusão ou plágio àquela música conhecida de todos, “as águas rolavam sem parar”, e se alguém tivesse anotado, poderia afirmar com certeza que já faziam quatro dias. Que outra coisa poderia se fazer naquela circunstância a não ser inventar pensamentos ? E de reflexão em reflexão descartáveis, havia descoberto que de uma janela da minha casa a outra, tinha exatamente vinte e sete passos, e decorridos mais de duas horas de percurso, o tempo não havia apresentado mudança. Nenhum companheiro de causo passou pela rua, nenhuma estrela piscou no céu, nenhum cão havia latido. Minha vigilância em busca de um fato novo que era quase extrema, tornou-se de toda inútil e criou um vazio de quase tudo na minha mente. Não era ansiedade, pois não esperava ninguém, não tinha nenhum negócio à vista e estava ali, de férias p’ra farrear, tomar umas e outras e sem querer saber onde “o judas havia perdido as botas”. Mas faltava alguma coisa, faltava história, risos e até parceiros para ativar minha imaginação que já estava cansada de não fazer nada. Até aquelas lembranças de tempos idos que sempre andam comigo, estavam esmorecidas e com receio dos relâmpagos e trovões. Pois bem, Já quando o último vestígio de esperança de alteração daquela situação começou a escorrer junto com a chuva pela calha do telhado da varanda, ouvi um barulho de carro e um brilho de farol cortando a escuridão. Eram oito horas da noite e parecia duas da madrugada. Um conhecido nosso, em sua caminhonete toda suja de barro, parou em frente à casa do meu cunhado e pediu guarida até o outro dia. Estranhei, pois aquele homem não costumava pernoitar em casa que não fosse a dele, mas ao ouvi-lo justificar para a empregada da minha irmã, fiquei satisfeito. Era que ele voltava de uma viagem e não estava com coragem suficiente para enfrentar aquele temporal até a sua fazenda, na divisa com o município do outro Santo, aquela hora. Naquele exato momento, alguma coisa caiu do arquivo de minha memória e comecei uma regressão, imediata e espontânea de trinta anos. Era a adrenalina ou a senha que eu precisava. Aquele homem continuava sendo um fazendeiro que administrava sua fazenda de forma maneira, comprava e vendia gado, além de ainda continuar gostando de um papo de política. Mas há trinta anos atrás ele foi meu vizinho e também tinha o hábito de atazanar, conforme diziam os mais velhos, aquelas pessoas que “não funcionavam bem da cabeça”, ou seja, que pareciam ter “um parafuso a menos”. E foi assim, com um tal de Doro do Amendoim, com Arí Ventania, a Izefa, o Antônio da Josina, o Véio do Tabuleiro, os Abóboras, o Tio e outros. O Tio, que também foi meu vizinho era solteirão por opção e gostava de uma “branquinha”; tirava gosto com rim de porco assado na chapa de fogão de lenha, e quando “meio alto”, resolvia suas pendengas na base do grito, da pedra ou do pau. Tinha como ocupação buscar animais no pasto de cima e levar para o pasto de baixo, cortar vassouras, cortar varinhas de azóis, entregar quitandas e fazer pequenos serviços em troca de uma gorjeta; mas servia, preferencialmente e especialmente, à sua família, que era quem cuidava dele. Sua “diferença” e seu “carma” era exatamente o Cachimbo... Aquele homem que ainda há pouco, subiu as escadas da casa do Prefeito. Não combinavam de forma alguma e os encontros dos dois sempre “seriam trágicos se não fossem cômicos”, porque terminavam com correria, paulada ou pedrada, sem maiores conseqüências. No outro dia era a mesma coisa. Mas o Tio, apesar de tudo, era muito querido de todos e certa vez ficou doente. Sua casa, ou seja de sua família, ficou cheia de visitas e eu não podia faltar, pois também era amigo dele. E olhe que nem precisa falar da sua felicidade. Na minha saída após a visita, já na certeza do dever cumprido, encontro o Cachimbo entrando, portando uma bandeira de paz. O Tio, mais uma vez quase se levantou da cama de tanta satisfação e até pediu uma cadeira de estofado para o visitante recém chegado, sentar-se. Fizeram as pazes em poucas palavras e posteriormente conversaram sobre tudo, enfim acertaram os ponteiros. Quinze minutos depois, na saída, após desejar o pronto restabelecimento para o Tio, o Cachimbo, que sempre aprontava, perguntou se ele podia fazer-lhe um favor, no máximo em três dias, pois tinha urgência. O Tio, inocente e satisfeito, grato pela visita, disse-lhe que sim e de imediato indagou qual era o favor. E o Cachimbo já mirando a porta de saída e observando se havia alguém no caminho, respondeu-lhe que era levar uma carta para entregar ao pai dele. Neste momento, eu que ainda estava conversando na pedreira da casa, só ouvi uma barulhada danada e dois vultos saírem correndo rumo à rua de cima... Era o Tio, esquecendo que estava doente, correndo atrás do Cachimbo com um cabo de vassoura, mais uma vez... Motivo ?... O pai do Cachimbo havia falecido há mais de dois anos... Pois bem, algum tempo passou e o Tio, infelizmente faleceu de verdade e pouco depois, o Cachimbo deixou de ser meu vizinho, foi morar no Quilombo. Uma noite, quando voltava para sua fazenda, o Cachimbo parou para abrir uma porteira e tirar “água do joelho”. Viu um homem encostado no barranco e como a lua estava bem clara, permitindo-lhe uma boa visualização, já perdendo o raciocínio e quase sem voz, exclamou:- Olá Tio, o que você está fazendo aqui a esta hora ? E aquele vulto muito magro e branco, com um sorriso irônico e tirando o chapéu de palha, respondeu: - Amigo, não podia esquecer o favor que você pediu, vim buscar a carta do seu pai. No outro dia, o carro do Cachimbo teve que ser lavado e perfumado umas dez vezes, e dizem que ele, que não gostava muito de rezar, após aquela noite, foi visto várias vezes na Igreja. Se queria redimir frente aquela alma que ele havia infernizado em vida, não sabemos, mas o certo é que no ano seguinte ele fez a festa do padroeiro da cidade... Pois é, após aquela viagem ao passado, naquela noite em que chovia e ventava, e voltando para casa depois de um dia inteiro sem sair dela, fechei rapidamente as janelas do salão e tratei de colocar uma roupa de dormir. É que minhas lembranças haviam ido longe demais e assim como o meu amigo Cachimbo, nunca fui exemplo ou referência de coragem para ninguém. E sem apagar as luzes, fui dormir. Afinal de contas não devemos mesmo, brincar com quem já foi p’ra outras bandas . Talvez tenha sido este o motivo que levou o Cachimbo a subir aquelas escadas naquela hora e pernoitar fora de casa pela primeira vez...
