A terrinha da minha infância era uma cidadezinha jovem que contava com aproximadamente cento e oitenta casas, dispostas ao longo de uma única rua no sentido em que desciam as águas do rio. Era um lugarejo aconchegante, sem pressa, acostumado apenas com o barulho dos cascos dos animais, com o mugido das vacas, com os gritos dos tropeiros, enfim com o murmurinho das cachoeiras e das pessoas que levavam a vida, os fatos, os amores e os negócios, rua abaixo e rua acima vinte e quatro horas por dia. Era tudo ou quase tudo rotina, exceto nos domingos de missa - dia de passar uma água morna no corpo, de vestir a roupa mais nova e mais bonita, de engraxar a botina ainda que antiga, de rever a namorada e de tomar “qualquer coisa”. A missa das oito, era para o pessoal da rua, mais adulta, tranqüila e rezada em menor tempo; A das onze, era diferente e tinha mais requinte, atendia aos jovens e o pessoal das áreas rurais, embora alguns dorminhocos e retardatários urbanos, também comparecessem neste horário para cumprirem o dever de católicos e “papearem” um pouco com Deus. Além daquelas celebrações, no início da tarde, eram realizados os batizados, os casamentos e em dias especiais, os leilões ou as procissões. Depois dos ritos sacros começavam os momentos profanos: os “recadinhos” maliciosos, os namoricos, os causos, os comentários das beatas, as fofoquinhas e as farras. Era dia de “vaca gorda” para os comerciantes e biscateiros. De vez em quando alguma coisa chamava a atenção: uma briga, um tombo do cavalo, uma confusão qualquer, mas nada de muita importância. Lá pelas seis da tarde, conforme já disse anteriormente, tudo ou quase tudo, voltava à rotina. Nas épocas de frio, os rapazes e moças da rua faziam uma fogueirinha na frente das casas para arrematarem o domingo e ainda era uma oportunidade de se ver a última turma deixar a cidade. Era o pessoal da Serra que ficava pelos botecos da cidade tomando “umas e outras” e procurando “adrenalina” e na maior algazarra subia o morro do córrego sujo em seus cavalos, burros e mulas e olhe, “bem chapados”, às vezes até estranhando uns aos outros. E foi exatamente num crepúsculo de domingo de missa do mês de julho e de férias, de frio e lua cheia, que o Telvino, um gigante moreno de um metro e meio de altura, menos de cinqüenta quilos, dentes em cacos, calado e encrenqueiro, companheiro inseparável de uma peixeira de mais ou menos cinqüenta centímetros, aprontou quase tragicamente. Foi na subida da Serra, num terreno de capoeira, cheia de candeia. Depois de “caçar briga” com seus colegas de trote e não encontrar adversário, Telvino se apartou da turma e seguiu silenciosamente um pouco à frente dos demais. Sem nenhum comentário, parou antes de passar pela porteira do espigão. Desceu de sua égua baia, a chimbica, tirou as botinas de couro surrado e caminhou sem pressa, passos miúdos, com as mãos no rasgo da calça e puxando a muxiba. Queria “verter água” do outro lado do caminho e não hesitou. Medindo caminho e sem se preocupar com nada, passou por uma pedra, por um pé de fruta de lobo e parou de frente para um mourão seco de angico. Alguma coisa se mexeu entre as raízes num movimento rápido, armou bote entre os pés de guabiroba, “chocalhou” e ficou de cara feia e que nem pêndulo de relógio de parede. Sim, era uma cascavel, das mais “eradas”. Telvino se enfeitou de bravo, estufou o peito que nem balão de festa de aniversário ao ser soprado, levou a mão na cintura e chamou a cobra p’ra fora com um tapa na ”orelha” dela. E olha que a desgraçada topou. Foi uma peleja dos diabos: era “facada” na cabeça da cobra, picada na perna do homem; “golpe” no rabo da cascavel , mordida na mão do Telvino. Quinze minutos de gingas e “botes”. Nenhum dos companheiros que vinham logo atrás e assistiam a cena, mais do que apavorados, tiveram coragem de intervir; era briga de “cahorro grande” mesmo. No final, a cascavel morreu furada sete vezes pela peixeira de mais ou menos cinqüenta centímetros do Telvino, que mesmo ferido ainda cortou o chocalho da cobra. Aí, desabou pelo chão, com as oito picadas que levou pelo corpo. Providencialmente, os companheiros buscaram recurso e ele recebeu os primeiros socorros do farmacêutico Guido ainda no ringue da luta. Posteriormente foi transferido para o Hospital de Conceição do Mato Dentro, onde o médico de plantão, por sinal muito competente, dispensou a aplicação do soro por já ter passado mais de dez horas e até porque, em seu organismo havia ainda, uma grande quantidade de pinga da Fazenda Nova, o Santo remédio que salvou o Telvino ! Após quinze dias de internação, nosso herói retornou à Serra quase bom, exceto por algumas seqüelas que ficaram. Foi recebido com festas como o maior cobra, digo, cabra macho do lugarejo. Por aquelas terras e adjacências que davam acesso ao distrito da Serra, havia uma grande incidência de mortes por picadas de cobras, mas depois do ocorrido, tais perdas diminuiram bastante. Por muitos e muitos anos não se viu nenhuma cascavel cruzar a estrada. É que o Telvino, continuou o tratamento com o Farmacêutico Guido, em Santo Antônio e, pelo menos por duas vezes na semana passava por aquelas bandas ainda portando na cintura aquela peixeira de mais ou menos cinqüenta centímetros. Como intriga corre a passos largos, as parentes da falecida, as outras cascavéis, tomaram conhecimento daquelas idas e vindas do desafeto e para evitarem maiores consequências, juntaram as trouxas e se puseram em fila indiana em retirada rumo norte daquelas terras...