Este causo é mais uma das histórias acontecidas em Santo Antônio do Rio Abaixo. Talvez seja até pertinente omitir alguns nomes de personagens participantes desta narrativa em razão de que alguns ainda estão vivos e não é nosso propósito criar animosidade com ninguém, principalmente com os descendentes. Mas, numa localidade rural do município denominada Barra dos Menezes, próxima de uma fazenda que talvez hoje seja o maior latifúndio e o mais produtivo da região, existia um pequeno sítio numa baixada onde mais tarde foi construída uma Escola Rural. A terra desta propriedade era muito fértil e cortada por um riacho cristalino, o que realmente favorecia a cultura de diversas espécies de subsistência, especialmente as roças de milho, feijão, mandioca e banana, plantadas ao longo de todas as estações do ano e cuidadas diariamente pelas pessoas da família proprietária. No entorno da sede havia uma mata de porte médio, bem densa, com espécies de madeira de lei, alguns arbustos e outras árvores de grande porte e que se constituíam no habitat de alguns pássaros raros, roedores diversos, cobras, pequenos predadores e uma manada de macacos. O local, à primeira vista, parecia um paraíso, mas segundo os sitiantes, nem tanto. Exatamente quando o milharal começava a embonecar, sinal de que em pouco tempo, os grãos poderiam render um dinheirinho extra, começavam os problemas e a dor de cabeça dos donos do sítio. Um grupo de primatas saía de suas moradas, principalmente nas manhãs do mês de julho e realizava a maior baderna na roça do senhor Samuca. Tal situação já estava quase insustentável, pois já não surtia efeito, as armadilhas, os foguetes, os bonecos de pano e nem a guarda dos cachorros treinados. E foi no terceiro ano de prejuízos, que o velho Samuca tentou um último recurso antes de mudar de ramo: pretendia criar vacas ou mudar com a família para São Paulo. Vestiu-se de espantalho com roupas de retalhos coloridos, pintou o rosto com urucum produzido na terra, enterrou um chapéu de palha desfiada na cabeça e colocou na mão um mulato de quase um metro, secado na chapa do fogão de lenha, e se instalou no meio do milharal, do lado de um pé de angico. Pediu à esposa que ficasse no rancho de esconder do sol na hora da “bóia” e aguardasse suas orientações. Não demorou muito e o chefe do bando deu “as caras”. Um chamado aqui, dois ali, sete, quatorze acolá e os baderneiros, invasores de propriedades alheias, chegaram. Viram o espantalho humano, mas como estavam acostumados com o cenário nem ligaram. Um deles, o chefe, muito próximo do espantalho e na maior gozação, arrancou uma espiga de milho, deu sete mordidinhas no sabugo e mirando o boneco que pensou fosse de pano, acertou o meio da testa do Samuca, que revidou na mesma hora com uma cacetada na cabeça do animal, que nem teve tempo de esboçar uma defesa e caiu “de maduro” como se tivesse bebido toda a pinga do Custódio. O agressor, que já estava preparado, enfiou o saco no bicho, amarrando a boca do embornal com cipó são João. Com o gemido do chefe, a macacada restante, dando conta da gravidade da situação e numa agitação total, pediu reforço aos que estavam do outro lado da cerca e a bagunça foi formada. A roça virou um verdadeiro ringue. Era cacetada aqui, mordida ali, unhada lá, chute acolá e uma gritaria geral. Era bicho correndo em dois pés, o Samuca fugindo de quatro e sangue sujando as plantas. O macaco chefe foi libertado pelo bando, mas a briga continuou. A dona Mariazinha vendo o marido em desvantagem e já bem ferido, saiu do rancho com uma foice e só se via vultos rolando pelo chão e mato quebrando. Um peão, que campeava distraidamente no pasto vizinho, avistou aquela cena do alto do morro. Achou até que era confusão de reforma agrária e Juntou o cavalo baio na espora rumo à cidade para chamar a polícia e o farmacêutico. Não tardou muito e a polícia chegou sozinha ao sítio. O farmacêutico estava para as bandas da Serra atendendo um senhor que na noite anterior, bem embriagado, resolveu encarar uma desavença com uma cobra cascavel. O Samuca e a dona Mariazinha já estavam em casa e o ambiente parecia de velório... Mas a polícia tinha que cumprir o seu dever e se juntou aos filhos e vizinhos mais próximos, num quarto de duas janelas, onde os feridos repousavam cobertos por um lençol branco. Após os cumprimentos de praxe, o cafezinho de rapadura e o bolo de fubá de moinho, o Cabo, comandante da força tarefa iniciou a ocorrência com a tradicional pergunta: Quem foram os meliantes responsáveis por esta dupla agressão ? O Samuca gaguejou, gaguejou, meio sem jeito e ainda sob o efeito das dores intensas, disse baixinho: - Foram os desgraçados dos macacos. – Quem ? Os macacos, que vêm bagunçando a nossa roça, nos fazendo muita raiva e nos causando enormes prejuízos há anos. E contou a história detalhadamente para os presentes. O Cabo olhou para os soldados, que miraram os presentes e abaixaram a cabeça... Agradeceram o cafezinho, o bolo, despediram e saíram da casa, silenciosamente. Ao chegarem à Delegacia, o Chefe da polícia, muito sério, determinou aos subalternos, que fechassem a ocorrência em conformidade com a lei e arquivasse os autos no armário dos crimes não esclarecidos.. Mas sem nenhuma observação ou comentário...